Reflexões

Amigos e irmãos — Júnior Belchior

Amizade e irmandade

Decidi escrever sobre este tema porque, na última semana, um caso me deixou perplexo e, no mínimo, desnorteado. Eu estava passeando por um shopping da capital, um pouco antes do Natal, e entrei para comprar um determinado objeto, convicto de que tinha o dinheiro na conta. Escolhi o item, pedi para fazer um embrulho especial de Natal, toda aquela “firula” peculiar da data.

Na hora do pagamento, o abençoado cartão não passou, mesmo tendo certeza do montante. Pedi licença à vendedora e abri o celular para acessar o aplicativo bancário, pois “de certeza morreu um burro”. Ao consultar o saldo, observei que realmente o cartão não poderia passar: não havia saldo nem perto do valor da compra, e você, obviamente, começa a ficar constrangido com a situação.

Pensei logo em ligar para um dos meus irmãos, foi a primeira coisa que me veio à cabeça. “Eu ligo, peço emprestado e depois devolvo.” Ledo engano! Pelo famoso mensageiro WhatsApp, expliquei a situação, inclusive o constrangimento, mas a resposta foi um sonoro NÃO. Sinceramente, eu morri sem precisar ser enterrado. Não era um valor alto, e ele tinha, inclusive, afirmou na conversa, mas que não emprestaria.

O susto foi grande; eu já estava constrangido e fiquei sem saber o que fazer na hora. Rapidamente, me veio à cabeça meu melhor amigo, com 25 anos de amizade. Graças a Deus, nunca havia solicitado esse tipo de coisa, apesar de termos intimidade para isso e muito mais. Fui novamente ao WhatsApp, chamei, ele respondeu prontamente, expliquei a situação, e ele me fez apenas uma pergunta: “É só isso mesmo? Não está precisando de mais não, porque entre nós não temos frescura.” Aquilo me deu um alívio tão violento! Imediatamente após pagar a loja, sentei-me e comecei a analisar como a vida é surpreendente.

A pessoa com quem passei a infância inteira, brincávamos juntos, dormíamos no mesmo quarto, fazíamos praticamente tudo juntos — inclusive, como sou mais velho, cansei de protegê-lo de apanhar tanto na escola quanto fora dela — acabara de me negar uma “besteira”, sem qualquer motivo. Meu melhor amigo (irmão que a vida me deu) nem titubeou por um segundo, nem quis saber para que era. Mandou um Pix mais rápido que um foguete.

É inimaginável o que ocorreu naquele dia, naquele momento. Eu havia descoberto que a frase do polímata estadunidense Benjamin Franklin era a mais pura verdade e diz o seguinte: “Um irmão pode não ser um amigo, mas um amigo será sempre um irmão.” A tal frase é uma verdade, eu senti na pele a veracidade daquela afirmação.

Essa experiência foi ótima; agradeço a Deus por passar por ela, pois tudo é aprendizado. E nessa, eu aprendi rapidamente que aquele irmão é frio, calculista, desprovido de empatia e de qualquer sentimento de irmandade. Por outro lado, apesar de ter ficado envergonhado com a situação, vi que um amigo pode ser muito mais que um irmão. E eu tenho poucos amigos, graças a Deus, até porque quem tem muitos é sinal de que não tem nenhum, e tenho certeza de que todos me acudiram em tal momento.

Essa vivência dolorosa, mas instrutiva, realça a diferença gritante entre os laços de sangue e os laços de coração. A empatia, a generosidade e a prontidão em estender a mão a alguém em necessidade são qualidades que transcendem qualquer parentesco biológico. O episódio no shopping, por mais constrangedor que tenha sido, serviu como um divisor de águas, revelando quem realmente se importa e quem somente mantém uma fachada de proximidade. É um lembrete poderoso de que, em momentos de vulnerabilidade, o apoio genuíno de um amigo vale mais do que qualquer fortuna ou laço familiar superficial.

A vida, em sua imprevisibilidade, muitas vezes nos coloca em situações que nos forçam a reavaliar nossas prioridades e a reconhecer quem são as pessoas verdadeiramente importantes em nosso círculo. Essa experiência, embora embaraçosa, foi um catalisador para uma profunda reflexão sobre o valor da lealdade, da solidariedade e do amor incondicional. Ela reforça a ideia de que a verdadeira riqueza não está no saldo bancário ou nos bens materiais, mas sim na qualidade das relações que cultivamos e na certeza de que, nos momentos de aperto, podemos contar com aqueles que nos veem não apenas como parentes, mas como irmãos de alma.

Termino como sempre com uma frase, dessa vez do saudoso cantor Chorão:

“Melhores amigos, na verdade, são irmãos que por algum erro não caíram na nossa família.”

Júnior Belchior

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