Apologética

Novamente um estranho.

Estranho amigo

Em certas situações do quotidiano, a vida afasta-nos de determinadas rotinas e de certas pessoas, pessoas essas de quem, em algum momento, nos tornamos próximos ou até íntimos. Essa aproximação pode ocorrer no trabalho, na escola, num relacionamento ou onde a sua imaginação alcançar.

A proximidade é, na verdade, um contrapeso; ela só é dada a alguém ou a alguma coisa em detrimento de outras. Existe um certo limite, mesmo que inconsciente, que nos faz agir dessa maneira.

Durante o tempo de maior aproximação, geralmente, você é tratado e trata o outro de forma íntima, pessoal e sempre da melhor maneira possível. Passa a existir ali uma comunhão de pensamentos e atitudes. O grande problema surge quando, por alguma razão, você precisa de se afastar para resolver outros assuntos, e o que era intimidade se transforma automaticamente em superficialidade, levando-o a questionar-se sobre o que se passa com aquela pessoa, cuja prioridade, em parte, residia em si.

Passei a analisar com certa tristeza esse tipo de comportamento dúbio, que o tempo revela em algumas pessoas cujo DNA, muito provavelmente, é mais parecido com o de um camaleão. Estes indivíduos, mestres na arte da adaptação social, mudam de cor e de comportamento conforme a conveniência do momento. A lealdade deles não reside em princípios ou em afeto genuíno, mas na utilidade que você representa no seu círculo social atual. Quando a sua presença deixa de ser vantajosa, a máscara cai, e a sua importância desvanece juntamente com a cor que eles antes exibiam para si.

Os verdadeiros amigos ficam, não importa o tempo, a distância, o comportamento ou a falta dele. O fato é que um amigo de verdade não esquece a sua amizade por questões sazonais ou de ausência repentina.

Amigos e pessoas com quem houve um relacionamento íntimo, que possuem um caráter retilíneo, uma conduta séria e que não sofrem de uma mistura de molecagem com mau-caratismo, jamais passam a desconhecer quem um dia lhes foi próximo, inclusive ajudando em situações adversas.

O fenômeno da indiferença súbita é uma das formas mais cruéis de rejeição, ao operar no silêncio. Não há um confronto direto, uma explicação ou um ponto final claro. Você é simplesmente relegado a uma zona cinzenta de esquecimento, o que o leva a duvidar da veracidade de todas as memórias partilhadas.

Essa atitude invalida o passado e gera uma ferida profunda, pois a mensagem implícita é dolorosa: “Você nunca importou de verdade”. É um golpe que atinge diretamente a nossa percepção de valor e a nossa capacidade de confiar nos outros.

Tenho-me referido à amizade, mas este fenômeno não é exclusivo dela; também ocorre com muita frequência noutros relacionamentos, se é que me fiz entender. Inexplicavelmente, passamos de uma pessoa muito próxima para uma extremamente desconhecida, recebendo um novo tratamento chamado INDIFERENÇA, o que nos faz repensar se o tempo foi perdido ou se serviu de aprendizado para o futuro. O fato é que este tipo de fenômeno interpessoal é das coisas mais estranhas que já senti na vida, algo lamentável que nos deixa completamente atônitos.

Ainda assim, essa experiência dolorosa, embora amarga, serve como um filtro poderoso. Ela ensina-nos, da maneira mais dura, a diferenciar a intensidade da constância e o interesse da verdadeira conexão. Aprendemos a ser mais seletivos com a nossa energia emocional e a valorizar aqueles que permanecem ao nosso lado não pela conveniência, mas pela essência do que somos. No fim, a perda desses laços superficiais abre espaço para relações mais autênticas e resilientes, que não se desfazem com a primeira mudança de cenário.

É de se lamentar com bastante ênfase que, outrora, servíamos para quase tudo e que, por um afastamento necessário, passamos a não servir para absolutamente nada.

Termino, como sempre, com uma frase sobre o tema e hoje, ao dissertar sobre o mesmo, veio-me à memória a frase do poeta, jornalista e historiador Mário da Silva Brito, que diz: “Certos amigos dispensam-nos de ter inimigos”.

Por Júnior Belchior

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