Fé

Se há uma coisa que todos dizem aos quatro ventos, é que a fé não lhes falta. A relação com Deus é como um cartão de crédito: pessoal e intransferível. Portanto, não cabe a ninguém duvidar da fé alheia.
É preciso, no entanto, diferenciar os tipos de fé. Há pessoas que depositam a sua fé no dinheiro, fazendo dele o seu deus. Outras depositam-na em si mesmas, transferindo a confiança do Criador para a criatura. Graças ao bom Deus, a maioria coloca a fé no lugar certo: em Deus e no seu filho unigênito, Jesus Cristo.
Já passei por algumas situações difíceis na vida e agradeço por isso, pois só há crescimento nos momentos de adversidade; raramente vejo sair algum aprendizado de um mar calmo. Sempre tive fé, desde a escola de padres, passando pelo batismo nas águas, e até hoje sigo firme, com fé em Cristo. Em 1999, sofri um gravíssimo acidente automobilístico. Foi necessário ir para a capital paulista, visto que, na minha cidade, o prognóstico do ortopedista não era de que eu voltaria a andar. A esperança veio do Dr. Ruy Gouveia, a quem aproveito para agradecer pelo seu profissionalismo e correção.
Ao médico paulista, infelizmente, é-me impossível agradecer pessoalmente, visto que ele faleceu recentemente. Inclusive, quando li a notícia da sua passagem, não me contive e chorei copiosamente. Não há dinheiro que pague a fé e a confiança que o Prof. Dr. Roberto Attilio Lima Santin demonstrou ao operar por duas vezes cada um dos meus joelhos e o meu ombro esquerdo. O dinheiro, nessas horas, pode pagar o serviço, mas nele não estão inclusos a fé, a atenção, a confiança e o carinho que recebi do Dr. Roberto durante os 60 dias de permanência no hospital.
É por isso que afirmo com total convicção: a fé é uma simbiose perfeita do amor a Deus com o pensamento total e absoluto de que tudo irá correr da melhor maneira. E a “melhor maneira” não é a que queremos, é a que Deus quer. Muita gente pensa que ter fé é ver a sua própria vontade concretizada. Isso não é fé, é torcida. Fé é ter a certeza de que Deus fará o melhor, e não o que a sua vontade determina ou o “jeitinho” que você deseja. Um dos maiores equívocos que vejo, inclusive nas igrejas, é a certeza de muitos de que a fé serve para que Deus atenda aos seus caprichos. Caso você também pense dessa forma, já passou da hora de ler ou reler a Bíblia Sagrada.
Recentemente, tive outro problema de saúde bastante sério. Muitas pessoas se preocuparam, oraram, choraram. Em outros, contudo, eu quase conseguia ler na testa: “Agora ele não aguenta, o trem da meia-noite irá levá-lo”. Essa gente “boa” mal sabe que a morte, para quem crê, é o começo, e não o fim. Lógico que jamais abordei essas pessoas, tão confiantes em testemunhar o pior. Reservadamente, a minha resposta era a fé. A fé de que Deus faria o melhor, e não o que eu queria.
A verdadeira fé não é um escudo que nos torna imunes às tempestades da vida, mas sim uma âncora que nos mantém firmes durante elas. É a serena convicção de que, mesmo no meio da dor e da incerteza, existe um propósito maior e uma mão a guiar-nos, ainda que a rota seja incompreensível para a nossa limitada visão. Crer não significa ausência de sofrimento, mas a presença de Deus no sofrimento, transformando o que poderia ser desespero em um campo fértil para o fortalecimento do espírito.
Essa confiança, porém, não é um estado passivo ou isento de lutas. Pelo contrário, a fé é uma escolha diária, um ato de coragem que se renova a cada manhã, especialmente quando o cenário é adverso. É um diálogo constante entre a nossa fragilidade humana, que clama por alívio e por respostas, e a nossa alma, que escolhe confiar no silêncio de Deus. É nesse campo de batalha interior que a fé se purifica, deixando de ser um mero sentimento para se tornar uma convicção inabalável.
Deus não negocia, não atende a caprichos, não é o gênio da lâmpada e muito menos adepto desses pensamentos irresponsáveis que muitos pregadores afirmam. Essa abominável “teoria da prosperidade”, a ideia de que Deus faz tudo o que você pede, está destruindo a fé alheia, pois meia dúzia de aproveitadores, travestidos de padres e pastores, a prega ao seu rebanho. É preciso ter cuidado com certos ensinamentos; há pessoas a pedir tudo, exceto que a vontade de Deus seja feita.
Por fim, a fé genuína molda o nosso caráter. Ao nos submetermos à vontade divina, cultivamos a humildade, pois reconhecemos a nossa pequenez diante do Criador. Desenvolvemos a paciência, pois aprendemos a esperar no tempo Dele, e não no nosso. E, acima de tudo, geramos empatia, pois, ao compreendermos que todos enfrentam batalhas, tornamo-nos menos juízes e mais irmãos na jornada da vida. A fé não nos torna melhores do que os outros, mas melhores versões de nós mesmos.
Termino, como sempre, com uma frase, mas antes direi incessantemente: tenha fé! Fé na vontade de Deus, pois Deus é perfeito e sabe diferenciar perfeitamente o que você quer do que você precisa.
A frase, não poderia ser outra, senão a mais perfeita definição de fé que conheço, dita por Santo Agostinho de Hipona, um dos maiores teólogos do cristianismo:
“Ter fé é assinar uma folha em branco e deixar que Deus nela escreva o que quiser.”
Junior Belchior

