Apologética

O Dia em que Jesus Quebrou o Adulto centrismo: A Criança Como Modelo Teológico. — Júnior Belchior

A Criança Como Modelo Teológico.

A coluna de hoje já estava escrita há cerca de quinze dias, tratava da ligação de todo o antigo testamento aprontando para Jesus Cristo, porém, hoje em celebração ao dia das crianças me fez escrever uma nova coluna, o que só me dá prazer, graças a Deus. A coluna já escrita será publicada no próximo domingo.

O Dia das Crianças é, comumente, um momento de presentear e cuidar. No entanto, para a teologia, esta data deveria ser uma pausa radical, uma oportunidade de inverter a nossa perspectiva sobre o Reino de Deus. Quase sempre, pensamos na criança como o objeto do nosso cuidado, do nosso ensino ou da nossa evangelização. Mas e se a criança fosse, na verdade, o modelo? E se a teologia, construída há séculos por adultos para adultos, precisasse, urgentemente, se reconverter ao estilo de vida e de fé que a infância representa?

A Teologia da Criança não é somente sobre o que devemos fazer pelas crianças, mas sobre fundamentalmente o que Jesus nos ensinou a aprender com elas. Ao invés de as vermos como meros adultos em miniatura, imperfeitos e “a serem moldados”, somos chamados a enxergá-las como mediadoras de uma verdade crucial do Evangelho.

A teologia por muito tempo sofreu de um mal chamado adulto centrismo. Este é o viés que coloca a experiência, o conhecimento e a maturidade adulta como o centro de toda reflexão. Dentro dessa lógica, a criança é vista como um ser incompleto, que carrega o peso do pecado original e precisa ser “civilizada” ou doutrinada para, finalmente, ser aceita no corpo da fé.

No entanto, Jesus desarma essa visão abruptamente. No episódio registrado em Mateus 18:1-5, os discípulos perguntam: “Quem é o maior no Reino dos Céus?”. A resposta de Jesus não é um sermão sobre maturidade ou conhecimento profundo. Pelo contrário, Ele toma uma criança, a coloca no centro do círculo e declara a sua tese mais radical: “Se não vos converterdes e não vos fizerdes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus.”

Esta passagem não é um elogio ingênuo à pureza ou inocência da criança (embora elas sejam virtudes); é uma crítica mordaz à ambição adulta. A criança, naquele contexto, era a pessoa de menor valor social, sem direitos e sem voz. Ao elevá-la ao padrão para a entrada no Reino, Jesus subverte a hierarquia e nos ensina que a verdadeira grandeza está em aceitar a posição de humildade e insignificância que o mundo despreza. É a nossa ambição por poder e posição que nos impede de entrar.

Portanto, o primeiro ensinamento teológico da criança é a renúncia ao orgulho. A verdadeira conversão passa por se despir das armaduras de autossuficiência e da necessidade de ser “o maior”.

Uma das características mais notáveis da infância é a sua dependência total. Uma criança não finge que pode se sustentar; ela simplesmente sabe que precisa ser sustentada. Essa dependência física e emocional encontra um paralelo direto e profundo com o conceito bíblico de fé.

A fé, no cerne do Evangelho, não é um mero assentimento intelectual a doutrinas, mas uma confiança radical e espontânea em Deus. É a capacidade de se entregar sem reservas. O adulto, com sua experiência de dor, traição e falência, aprende a criar mecanismos de defesa e autossuficiência. Ele quer entender o “como” e o “porque” antes de se entregar.

A criança, em contraste, simplesmente confia que seus pais providenciarão. Ela se joga no colo sem questionar. É essa simplicidade de fé, desprovida de ceticismo exagerado e de intelectualização sufocante, que o Reino requer. O teólogo holandês Hendrikus Berkhof argumentou que a teologia deve ser um “exercício de humildade” para não sufocar a fé simples.

A passagem de Marcos 10:15, onde Jesus fala sobre receber o Reino como criança, reforça isso: “Em verdade vos digo que quem não receber o Reino de Deus como criança, de modo nenhum entrará nele.” Receber como criança é aceitar o dom, sem mérito e sem a presunção de que podemos alcançá-lo ou merecê-lo. É o abandono da ilusão de controle.

Além da dependência, a criança manifesta virtudes relacionais que deveriam envergonhar a Igreja. A capacidade de perdão da criança é quase instantânea; ela briga, chora, mas cinco minutos depois voltou ao jogo com o amigo. O adulto, em contrapartida, nutre mágoas por anos, constrói muros e guarda rancor em nome da “maturidade” ferida.

A espontaneidade é outra virtude teológica. A criança é o que é, sem filtros sociais complexos. Ela ri com facilidade e chora com honestidade. Essa transparência, ou integridade do ser, é o que falta à religiosidade adulta, muitas vezes marcada pela hipocrisia e pelo desempenho.

No campo da prática pastoral, a criança nos ensina sobre a ternura. Deus não escolheu manifestar-se ao mundo como um imperador inatingível, mas como um bebê vulnerável em uma manjedoura. A fragilidade de Jesus criança é um lembrete teológico de que a força de Deus se manifesta na mansidão.

Portanto, a criança é uma mestra na teologia das relações: ela nos convida a resgatar a capacidade de reconciliação imediata e a nos despir da complexidade egoísta que impede o convívio fraterno e honesto. Acolher uma criança é se expor à sua honestidade e ser desafiado pela sua capacidade de recomeçar.

Se a criança é um modelo tão precioso, a responsabilidade do adulto se torna imensa. A elevação teológica da criança anda de mãos dadas com o dever de sua proteção incondicional. Jesus lança uma advertência terrível: “Mas qualquer que escandalizar um destes pequeninos que creem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma mó de azenha, e se afogasse no fundo do mar” (Mateus 18:6).

“Escandalizar” aqui não significa somente ofender; significa ser uma pedra de tropeço, ou seja, impedir a criança de chegar a Deus ou de desenvolver a sua fé. A negligência, o abuso ou a falha em proteger a criança é um dos piores crimes contra o Reino. A teologia deve ser a primeira a denunciar toda forma de violência e negligência que fere o “pequenino”.

Por outro lado, o amor pela criança se concretiza no ensino diligente. É dever dos pais e da comunidade religiosa transmitir a “boa teologia” a que é fiel às Escrituras, mas que é acessível e relevante. Deuteronômio 6:4-7 instrui os pais a inculcarem as palavras de Deus nos filhos a todo momento: “… ao deitar e ao levantar-se”. O ensino não é um evento semanal, mas a atmosfera da vida em família.

O adulto não deve impor doutrinas vazias, mas criar o ambiente onde a criança processe o que aprende sobre Deus e, assim, fazer a sua própria “teologia da criança” — o questionamento e a construção pessoal de um relacionamento com o Criador

O Dia das Crianças não é somente um dia no calendário; é um marco teológico que nos convida a reavaliar a nossa fé. A criança não precisa de um mundo construído para ela, mas de um mundo que esteja disposto a aprender com ela.

Se a verdadeira grandeza do Reino exige que nos tornemos pequenos, dependentes e confiantes, então o nosso progresso espiritual não está em acumular conhecimento, mas em resgatar a humildade esquecida da infância. Que neste dia, ao invés de somente ensinarmos, nos ajoelhemos diante da lição mais simples e profunda do Evangelho: que um pequenino nos guiará.

Termino sempre com uma frase e hoje não poderia deixar de citar uma das frases mais belas de todo cristianismo, proferida pelo nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.

Mateus 19:14: “Deixai vir a mim os pequeninos, pois deles é o Reino dos Céus”.

Júnior Belchior.

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