Apologética

A maior confusão sobre Mateus 23:12. – Júnior Belchior

Mateus 23:12

Você já foi humilhado por alguém e pensou que Deus ia te exaltar por isso? Essa é uma das maiores confusões teológicas que existe dentro das igrejas evangélicas. Todo mundo conhece o versículo, todo mundo cita, mas poucas pessoas entendem o que ele realmente diz. Mateus 23:12 não fala de humilhação. Ele fala de humildade. E a diferença entre esses dois conceitos pode mudar a sua vida inteira.

Jesus falou isso no meio de uma declaração contra os fariseus, um grupo que se exaltava diante dos outros. A ideia não é que Deus compensa o sofrimento automático. A ideia é que quem escolhe a postura de humildade diante de Deus receberá a exaltação que vem dele. Isso é uma ação. Isso é uma escolha. Não é algo que acontece com você por acidente.

A humilhação é algo que acontece com você. Alguém te humilha no trabalho, na família, na vida social. Você não escolheu isso. Foi imposto. E por isso, a humilhação por si só não garante nada diante de Deus. Um homem pode ser humilhado por seus pares e ao mesmo tempo estar inflado por dentro, sem nenhuma atitude de dependência genuína diante do Senhor.

A humildade, por outro lado, é algo que você escolhe. Ela não é um sentimento. Ela não é uma emoção que surge porque a vida foi difícil. Ela é uma postura deliberada diante de Deus, um reconhecimento de que você não é suficiente por conta própria, de que você precisa dele para cada aspecto da sua existência. Essa é a humildade que Jesus ensinou. Essa é a humildade que o texto evangélico exige.

No próprio Mateus 23:12, o contexto é muito importante. Jesus estava criticando os fariseus que amavam os primeiros lugares nas sinagogas, que buscavam saudações públicas e que se posicionavam como autoridade espiritual diante do povo. A resposta de Jesus foi direta: “Todo aquele que se exalta será humilhado, e todo aquele que se humilha será exaltado.” Não tem uma palavra sobre a vítima. O versículo inteiro gira em torno de quem toma uma postura.

Essa mesma lógica aparece em outros textos da Escritura. Em 1 Pedro 5:6, Paulo escreve: “Humilhai-vos, portanto, sob a poderosa mão de Deus, para que ele vos exalte no seu próprio tempo.” Perceba o imperativo. “Humilhai-vos.” É um comando. Não é uma promessa condicional para quem foi tratado mal pela vida. É uma instrução para quem quer ser exaltado por Deus.

E em Tiago 4:13 a 14, Tiago retoma esse tema com uma aplicação muito prática. Ele fala sobre quem se exalta por conta própria, sobre quem planejar sem reconhecer a soberania de Deus, e então conclui com um chamado ao arrependimento e à humildade verdadeira. O padrão bíblico é sempre o mesmo: a exaltação de Deus responde à humildade ativa, não à humilhação passiva.

Um exemplo claro da Escritura é o de José. José foi humilhado. Foi vendido como escravo, foi preso injustamente. Mas o que colocou José na posição de exaltação não foi apenas o sofrimento que ele padeceu. Foi a sua atitude constante de dependência de Deus durante todo aquele processo. Em Gênesis 39:9, quando tentado pela mulher de Potífar, José disse: “Como eu praticaria essa maldade e pecaria contra Deus?” Isso é humildade diante de Deus em ação.

O mesmo aconteceu com Daniel. Daniel foi colocado numa situação de extrema humilhação dentro da Babylônia. Mas Daniel não ficou amargurado. Ele reconheceu a soberania de Deus sobre tudo, inclusive sobre o seu sofrimento. Isso é o que o texto de Daniel 2:20 a 21 mostra, quando Daniel louva a Deus pelo sabor e pelo conhecimento que recebeu. A humildade não foi o resultado do sofrimento. Foi a postura que Daniel escolheu manter no meio dele.

Então a pergunta que cada evangélico precisa se fazer é a seguinte: Você está realmente humilde, ou você está apenas humilhado? Porque essas são duas coisas completamente diferentes. Ser humilhado é uma experiência passiva que pode acontecer com qualquer pessoa, cristã ou não. Estar humilde é uma postura espiritual que exige entrega, reconhecimento e dependência deliberada de Deus.

Muitos cristãos confundem sofrimento com espiritualidade. Eles pensam que, por terem sido tratados injustamente, Deus deve os exaltar automaticamente. Mas a Escritura não diz isso. A Escritura diz que a exaltação vem de Deus, e que Deus a dá a quem se humilha diante dele conscientemente. O sofrimento pode ser um caminho para a humildade, mas não é a humildade por si só.

A humildade verdadeira, então, não é estar na menor posição social. Não é ser a pessoa mais humilhada da sala. É reconhecer diante de Deus que você não é suficiente. É depender dele para breathar, para pensar, para existir. É aceitar que a sua vida não faz sentido fora da vontade dele. Essa é a postura que Mateus 23:12 aponta. Essa é a postura que leva à exaltação divina.

E por isso, quando você lê “todo aquele que se humilha será exaltado”, não leia como uma promessa automática para quem foi vítima. Leia como um chamado. Um chamado para escolher humildade todos os dias, para se jogar nos braços de Deus mesmo quando tudo ao redor está te empurrando na direção oposta. Porque a exaltação que Deus oferece não é para quem sofreu mais. É para quem escolheu depender dele mais.

C.S. Lewis. Ele escreveu no seu livro Mere Christianity:

“A humildade não é pensar menos de si mesmo, mas pensar de si mesmo menos.”

Júnior Belchior

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