Hermenêutica

Lucas 23:43: A Vírgula Muda a Promessa de Jesus ao Ladrão?

Lucas 23:43: A Vírgula Muda a Promessa de Jesus ao Ladrão?

A vírgula que divide o céu
A vírgula que divide o céu: O cheiro de sangue e poeira pairava sobre o ambiente naquele dia de sexta-feira, quando o sol escondia-se por medo do que via. Jesus mal conseguia respirar com os pulmões em chamas e a pressão da própria carne rasgando os pulsos, mas ainda sobrava alguma energia para conversar com um criminoso agonizando ao Seu lado. Muitos de nós costumam pensar que a breve conversa decidiu o futuro daquele ladrão em uma questão de segundos, mas há um segredo bem escondido na pequena mancha de tinta que muda o sentido de tudo que foi dito na cruz.

Quase todos cresceram ouvindo que o ladrão conseguiu fazer um rápido atalho para o Paraíso naquele mesmo instante. Uma ideia bastante lisonjeira, especialmente para aqueles que têm medo de morrer. Afinal de contas, morrer se assemelha muito ao despertar em campos verdejantes. Somente que, quando se analisa o conteúdo da Sagrada Escritura, fica claro que não é isso o que se lê, nem o que as demais passagens ensinam sobre o estado dos mortos.

Em 1 Tessalonicenses 4:16-17, Paulo deixa bem claro que “o Senhor mesmo descerá do céu com grande brado, à voz do arcanjo, ao som da trombeta de Deus, e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles, nas nuvens, para o encontro do Senhor nos ares”. Ou seja, a morte era um simples sono profundo e os mortos voltariam a viver com Cristo em Sua Segunda Vinda. Se esta é a regra geral, por que deveria haver uma exceção em um determinado caso?

Aparentemente, encontramos a contradição clara entre o que Paulo prega e o que Lucas registra em Lucas 23:43. Deseja-se que a ressurreição ocorra logo e, então, que a pessoa já esteja no Céu após a morte. Porém, o fato é que o segredo não está nas palavras em si, mas no silêncio entre elas e na maneira pela qual os homens decidiram pontuá-las. Para que se entenda a história por trás destas poucas letras, é necessário observar a realidade física retratada em João 19:31-33:

“Os judeus, pois, porque era o Dia da Preparação, para que os corpos não permanecessem na cruz aos sábados, porque o sétimo dia aproximava-se, pediram a Pilatos que rompessem os joelhos dos crucificados e os tirassem. Então, os soldados foram e quebraram as pernas do primeiro e as do outro que com ele fora crucificado; mas, chegando a Jesus, vendo-o já morto, não lhe quebraram as pernas”.

O fato é que ninguém morre imediatamente após ter as pernas quebradas; simplesmente, a vítima deixa de contar com a sustentação de sua própria massa corporal e é deixada a morrer lentamente, sufocada. Logo, se o ladrão tinha suas pernas quebradas e ainda respirava quando o Sol se punha naquele horário, não poderia caminhar nas ruas de ouro daquele fim de tarde. Ele estava pregado no madeiro e sofria na escuridão, fiel às leis humanas e bíblicas da existência.

Houve, ainda, a passagem em que Maria Madalena visita o jardim onde Jesus estava e tenta abraçar Seus pés; a resposta Dele pode ser encontrada no versículo 17 de João, capítulo 20, quando Ele lhe disse: “Não me detenhas, porque ainda não subi para meu Pai, mas vai para meus irmãos e dize-lhes que eu subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus”. Ou seja, sequer Cristo ainda havia ido ao Paraíso naquele sábado, portanto…

Não faz nenhum sentido que Jesus tenha mentido ou que a Bíblia tenha contradito Seu próprio propósito. Na verdade, o problema está no fato de que a língua grega original não possuía qualquer pontuação, vírgulas, espaços entre as palavras e assim por diante. Era um bloco único de caracteres e cabia ao tradutor definir quais lugares se deviam tomar como pontos ou pausas para inspiração. A diferença entre as vírgulas antes e depois de “hoje” altera inteiramente o sentido da passagem.

Comumente, os tradutores que vieram séculos após o registro original resolveram colocar a pontuação antes de “hoje”, criando a frase famosa de que aquele homem estaria no Paraíso naquele dia. Era uma decisão teológica, não gramatical, e apropriada ao que eles tinham na mente sobre a existência da alma. Assim, eles construíram a frase do Mestre para encaixá-la no que já sabiam, mas geraram a contradição que mencionei acima.

Se for possível apenas mover aquele pontinho minúsculo uma casa adiante, a imagem se transformará num panorama inteiramente diferente. Desta vez, será “hoje em verdade te digo, estarás comigo no Paraíso”. Ou seja, o “hoje” passou a indicar o momento da promessa e não o da realização da promessa. Jesus estava prometendo salvação naquele momento de derrota e de desespero, enquanto o sangue jorrava pelo chão e o mundo celebrava Seu suposto triunfo.

Ele estava assegurando ao homem que, mesmo nesse dia de vergonha e de desespero, Sua Palavra seria a única constante de que a vida ainda continuava. Não estava prometendo um cronograma da ressurreição nem garantindo a viagem imediata ao Paraíso naquele exato instante, mas, sim, estava dando certeza de que, quando Ele estabelecesse Seu Reino em ressurreição, aquele ladrão arrependido tinha Seu lugar reservado à mesa.

Existem algumas traduções ousadas, como a Tradução Ecumênica da Bíblia, editada pelas igrejas católicas, que perceberam essa pequena sutileza na linguagem. Elas inserem o ponto depois de “hoje”, porque consideram a harmonia do resto do Evangelho muito mais respeitável do que o cronograma do avião. Deste modo, mantém o sentido unânime da passagem, permitindo que os mortos durmam no túmulo em paz, até a ressurreição.

A morte não é um elevador que nos carrega imediatamente do chão ao céu. É apenas um descanso, uma pausa, um momento indispensável de repouso até que Ele venha buscar cada um por Seu nome, conforme explica Paulo em 1 Tessalonicenses 4:15: “Dizemo-vos, pois, isto pela palavra do Senhor: que nós, os que ficarmos vivos para a vinda do Senhor, não precederemos os que dormem”. Pense em quanto alívio deve ter invadido a alma daquele homem naquele dia…

Afinal de contas, não recebeu o presente de um atalho mágico até o Paraíso, mas, sim, a palavra de honra de um Rei eterno e incorruptível que jamais se esquece dos Seus.

“A eternidade não começa quando você morre, mas quando você crê.” – Billy Graham

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