
Eu achava que a coisa mais difícil de ser pai eram as noites perdidas. As madrugadas em claro. As incertezas com a gestação, com o parto. As preocupações com saúde, com provisão, com tudo que um filho exige e que ninguém te ensina a carregar.
A coisa mais difícil que existe é lidar com o fato de que o tempo voa. É lidar com o fato de que as versões deles vão passando e não voltam nunca mais.
Aquele bebezinho aprendendo a andar, aprendendo a comer. Aquela criança de três anos, quatro anos, te perguntando sobre absolutamente tudo do mundo, como se você soubesse cada resposta, como se você fosse o repositório de toda sabedoria do universo. Os pequenos tesouros que eles acham na grama, na terra, na areia, e trazem para você com as duas mãos abertas, como se fossem diamantes. A alegria de viajar do seu lado. A inocência. A ingenuidade. Passa. Voa. E não volta mais.
E tem uma coisa que dói de um jeito difícil de nomear: você vai se tornando desnecessário do ponto de vista da sobrevivência deles. Eles não precisam mais que você segure a mão para atravessar a rua. Não precisam mais que você deixe a luz acesa no corredor. Não precisam mais do colo para dormir. E é exatamente isso que você queria, é exatamente o que você trabalhou a vida toda para que acontecesse. Mas, na hora, dói. Tem que doer mesmo. É uma dor boa, mas dói bastante. Essa é a crise. E é a mais silenciosa de todas.
Você estava ali, quieto, sem planejar nada. Talvez fosse uma tarde comum. Talvez você estivesse procurando outra coisa e encontrou sem querer. O álbum. O celular com as fotos antigas. E então você viu a foto e o chão saiu de baixo dos seus pés.
Tem uma foto específica, daquele dia específico, com aquela roupa que ele usava, com aquele sorriso de dente torto, com aquele olhar que buscava o seu porque você era o mundo dele. E você fica parado, segurando o celular, e não consegue respirar direito por alguns segundos. Porque você sabe que aquela criança não existe mais.
Não morreu. Graças a Deus, não morreu. Está viva, está bem, está crescida. Mas aquela versão dela, a que corria até você quando tinha pesadelo, a que não conseguia dormir sem você estar perto, a que achava que você sabia tudo, que tinha medo de tudo, mas não tinha medo de nada quando estava no seu colo, essa foi embora para sempre. E você não se despediu. Ninguém se despede. Ela foi saindo aos poucos, um dia de cada vez, sem avisar, e, quando você percebeu, já era tarde demais. Isso é uma perda. Ninguém fala assim, mas é. O que ninguém te preparou para sentir
Você foi preparado para muita coisa quando se tornou pai. Disseram-te que ia ser difícil. Te disseram que ia ter noite sem dormir, fase de birra, adolescência, conta de escola. Te contaram sobre o amor que ia chegar com uma força que você não esperava. Mas ninguém te preparou para esse momento. Para o dia em que você olharia para as fotos e entenderia, de um jeito que machuca por dentro, que aquilo passou e não volta.
Ninguém te avisou que ia chegar uma tarde em que você ia sentar com um álbum no colo e sentir falta de uma versão de alguém que ainda está vivo. Que você ia ter saudade de uma coisa que não se perdeu, mas que mudou tanto que parece perdida.
E ela é silenciosa, essa dor, porque você não pode falar para o filho. O que você vai dizer? Quem sente falta de quando ele tinha seis anos? Que você daria qualquer coisa para voltar a uma tarde só, aquela tarde de sábado quando ele pediu para brincar de cavalinho e você ficou de quatro no chão e os dois riram até cansar? Você não fala. Porque ele já tem a vida dele. Porque o tempo não para para ouvir essas coisas, então você fecha o álbum, enxuga o olho com o dorso da mão e continua.
Tem um pai na Bíblia que entende exatamente o que você está sentindo. Ele perdeu o filho de uma forma diferente. O filho pediu a herança, foi embora, e a distância entre eles era quilométrica. Mas o que a parábola diz não é sobre o filho. É sobre o pai.
“Quando ele ainda estava longe, seu pai o viu.” (Lucas 15.20)
Esse pai estava olhando para a estrada. Todos os dias. Ficava com os olhos no horizonte, esperando uma silhueta que reconheceria entre mil. Não esqueceu o jeito que o filho andava. Não esqueceu o formato do ombro dele. Ficou com a memória do filho dentro do peito como uma brasa que não apaga. Você conhece esse sentimento.
Você não perdeu os seus filhos para a distância física. Mas você entende o que é olhar para alguém que cresceu e sentir que aquela versão específica, de colo, de pesadelo noturno, de mãozinha pequena dentro da sua, foi embora feito o filho pródigo. E você ficou com a memória acesa. Com saudade de quem ainda está aqui. Isso é amor. É a prova mais clara de que você esteve presente. O tempo que ninguém segura.
Moisés escreveu o Salmo 90, sendo um homem que tinha visto muita coisa. Milagres, deserto, a nuvem de fogo, o maná caindo do céu. E o salmo que ele escreveu não é sobre milagres. É sobre o tempo.
“Os nossos dias passam tão depressa como a erva que de manhã cresce, e à tarde é cortada e seca.” (Salmo 90.6)
É uma imagem brutal. A erva que você vê verde pela janela do café da manhã já está murcha antes do jantar. É assim que Moisés descreve a vida. Não como rio que corre devagar. Como erva que seca num dia. E se a vida inteira é assim, o que dizer daquela fase de colo e dente de leite e pergunta sem fim, que é só um fragmento da vida? Passou enquanto você estava ocupado pagando conta, indo trabalhar, tentando sobreviver, mas Moisés não parou na dor. Ele orou.
“Ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos coração sábio.” (Salmo 90.12)
Contar os dias. Não recuperar os que foram. Não voltar no tempo. Contar os que restam. Ser sábio com o que ainda tem. Os filhos que estão nas fotos ainda existem. Cresceram, mudaram de formato, ganharam vida própria. Mas ainda estão aqui. E um dia, quando forem pais, vão abrir um álbum. Vão segurar uma foto. Vão sentir a mesma pancada no peito. E vão entender, tarde demais, como a gente sempre entende, tudo que foi carregado em silêncio por amor a eles. O capítulo do colo acabou. A história não acabou.
O que as fotos não mostram? As fotos mostram o rosto. Mostram a roupa, o dia, o lugar. O que elas não mostram é o invisível. Não mostram o que ficou dentro deles de tudo que foi feito. Não mostram os valores que entraram sem que eles percebessem. Não mostram as noites de vigília que eles nunca ficaram sabendo. Não mostram o peso que foi carregado para que a vida deles fosse mais leve.
“Instrui o jovem no caminho em que deve andar, e, quando envelhecer, não se desviará dele.” (Provérbios 22.6)
O que foi plantado ainda está operando. Está crescendo dentro deles agora mesmo, nessa hora. Eles vão colher frutos que talvez nunca sejam vistos, frutos que vão aparecer nos filhos deles, nos netos de quem os criou. A foto congela um momento. Mas o amor que estava naquele momento não parou; ele foi com eles.
Para quem está segurando as lágrimas agora, se você chegou até aqui e o olho está cheio, fica assim por um minuto, não precisa engolir. Não precisa fazer cara de pedra. Esse choro é sagrado. É o choro de quem amou de verdade, de quem esteve presente, de quem viveu aqueles anos com o coração aberto. Tem pai que olha para as mesmas fotos e não sente nada, porque estava ausente quando aqueles momentos aconteceram.
Você não é esse pai. Você não é essa mãe. Você sente porque você estava lá e Deus viu. Cada noite acordado. Cada joelho no chão, brincando. Cada história contada antes de dormir. Cada vez que aquele rosto pequeno abria num sorriso que só existia para você. Deus viu tudo isso e nada foi em vão.
“Como um pai se compadece dos filhos, assim o Senhor se compadece dos que o temem.” (Salmo 103.13)
Deus é pai também. Ele sabe o que você está sentindo. Ele sabe como é amar alguém que cresce, que segue o próprio caminho, que às vezes se distancia. Ele mesmo sentiu isso. E continua amando sem diminuir, sem guardar rancor da distância.
Fecha o álbum. Respira fundo e vai até eles hoje. Não precisa explicar por quê. Pode ser só um abraço sem motivo aparente. Pode ser só a voz. Eles vão receber. E você vai encontrar, enterrada mais fundo, coberta por anos de vida, a mesma pessoa daquela foto, porque ela continua lá, e ela ainda é sua.
Carlos Belchior Júnior
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