O pastor errou. Você estava no culto. A pregação começou bem, o pastor abriu a Bíblia, citou versículos, fez aplicações práticas, e a maioria das pessoas saiu edificada. Mas alguma coisa não fechou. Um texto foi usado de um jeito que não parecia certo. Você anotou, pesquisou em casa e confirmou: havia um erro na interpretação. O que você faz com isso?
Antes de qualquer resposta, é preciso entender o que aconteceu. Porque a forma como você lida com o erro do seu pastor diz muito sobre a sua maturidade espiritual e sobre o tipo de cristão que você está se tornando.
O caso concreto: Levítico 6:12 e a “chama da fé”.
Circulou recentemente, inclusive com prints no Instagram, uma pregação que usou Levítico 6:12 como base para exortar os cristãos a “manter a chama da fé acesa”. O versículo diz o seguinte:
“O fogo deve ser mantido aceso no altar; não deve ser apagado. Toda manhã, o sacerdote acrescentará lenha, arrumará o holocausto sobre o fogo e queimará sobre ele a gordura das ofertas de comunhão.”
A aplicação soou bonita. Piedosa, até. Mas o texto não sustenta o que foi dito, e vale entender por quê, não para diminuir o pregador, mas para aprender a ler a Bíblia com mais cuidado.
Por que o texto foi mal aplicado?
Levítico 6:12 não é uma metáfora. Não é um princípio devocional universal. É uma instrução sacerdotal específica, endereçada a Aarão e seus filhos, dentro do sistema cúltico do tabernáculo. O fogo no altar do holocausto tinha uma função ritual precisa dentro de um sistema de adoração que regulava como o povo de Israel se aproximava de Deus antes da consumação da obra de Cristo.
Quando um pregador pega esse texto e diz ao cristão do século XXI: “mantenha a chama acesa, coloque lenha no altar todos os dias”, ele está cometendo o que os estudiosos chamam de aplicação moralizante sem mediação cristológica. Em linguagem simples: está usando um texto do Antigo Testamento sem fazer a pergunta mais importante que qualquer intérprete cristão precisa fazer antes de aplicar qualquer passagem do Antigo Testamento.
Essa pergunta é: onde Cristo aparece nesse texto?
Porque o sistema levítico inteiro, com seus altares, seus sacrifícios, seu fogo perpétuo e seus sacerdotes, era uma sombra. “Portanto, não permitam que ninguém os julgue pelo que vocês comem ou bebem, ou quanto a alguma festa religiosa, ou Lua Nova, ou dia de sábado. Essas coisas são sombra das que haviam de vir; a realidade, porém, é Cristo.” (Colossenses 2:16-17)
O fogo que não devia ser apagado apontava para o sacrifício perpétuo que encontrou seu cumprimento definitivo na cruz. Cristo não apenas cumpriu o sistema levítico. Ele o encerrou. “Ao contrário, este sacerdote ofereceu por todos os pecados um único sacrifício para sempre” (Hebreus 10:12). Quando você usa Levítico 6:12 como instrução devocional para o cristão sem passar por Cristo, você rouba do texto o seu significado mais profundo e entrega ao ouvinte uma aplicação que poderia aparecer igualmente numa palestra de autoajuda.
Os outros textos da pregação
A pregação também usou 2 Timóteo 1:6, em que Paulo diz a Timóteo para “avivar o dom de Deus que há em você”. Mas o contexto importa. Paulo está escrevendo a um líder apostólico que recebeu um dom específico para o ministério pela imposição de mãos. O verbo grego anazopyrein aponta para o dom ministerial de Timóteo, não para um estado emocional genérico do cristão comum. É um chamado à fidelidade no ministério, dentro de um contexto de perseguição e pressão pastoral.
Tirar esse versículo do contexto e transformá-lo numa instrução para que qualquer cristão “não deixe a fé esfriar” é perder o argumento real do texto, que é muito mais rico do que a aplicação genérica proposta.
O texto mais bem aplicado da pregação foi justamente o que foi citado de passagem: “E não deixemos de nos reunir como igreja, segundo o costume de alguns, mas procuremos encorajar uns aos outros, sobretudo agora que vocês veem aproximar-se o Dia.” (Hebreus 10:25). Aqui sim há uma exortação direta, dentro do novo pacto, para que a comunidade cristã persevere. E a motivação não é emocional. É escatológica. O dia se aproxima, e a resposta a isso não é manter um fervor individual, mas não abandonar a assembleia onde o encorajamento mútuo acontece.
O que a Bíblia realmente ensina sobre perseverança?
A perseverança cristã não é uma conquista de manutenção de fervor pessoal. Ela não depende de você colocar lenha no altar todos os dias pelo próprio esforço. A Bíblia ensina algo muito mais sólido e muito mais libertador do que isso.
“Aquele que começou a boa obra em vocês há de completá-la até o dia de Cristo Jesus.” (Filipenses 1:6)
“Da mesma forma, o Espírito nos ajuda em nossa fraqueza, pois não sabemos como orar como convém, mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis.” (Romanos 8:26)
“Ora, àquele que é poderoso para guardar vocês sem tropeçar e para apresentá-los diante da sua glória irrepreensíveis e com grande alegria.” (Judas 24)
A perseverança é fruto da graça, não do desempenho devocional. Quando um pregador, mesmo com boas intenções, usa textos levíticos para criar a impressão de que o cristão precisa “manter a chama acesa” pelo próprio esforço, ele está, sem querer, construindo uma teologia de manutenção religiosa que pressiona o ouvinte em vez de libertá-lo.
Agora a pergunta que realmente importa: o que você faz quando isso acontece?
Primeira coisa: respire. Um erro exegético numa pregação não é heresia. Não é motivo para crise, para abandono da igreja, para post indignado nas redes sociais. É um erro. Todo pregador comete erros. Spurgeon cometeu. Martinho Lutero cometeu. João Calvino cometeu. A diferença entre um bom pastor e um ruim não é a ausência de erros. É o padrão geral do ministério e a postura diante da correção.
Segunda coisa: verifique antes de concluir. O fato de algo soar errado não significa necessariamente que está errado. Pode ser que você não tenha entendido o argumento completo. Pode ser que o pregador tenha uma fonte que você não conhece. Pesquise. Abra um comentário bíblico sério. Consulte o texto no original, se tiver acesso. Chegue a uma conclusão baseada em evidência, não em impressão.
Terceira coisa: avalie o padrão, não o episódio. Um erro isolado num pregador que em geral expõe a Palavra com fidelidade é muito diferente de um método consistente de uso frouxo da Escritura. Se for o primeiro caso, anota, processa e segue em frente. Se você começar a perceber que é um padrão, que o mesmo método de aplicação moralizante aparece semana a semana em textos diferentes, aí vale uma avaliação mais séria sobre o que está acontecendo com a saúde exegética da pregação na sua igreja.
Quarta coisa: se houver canal, use com humildade. Priscila e Áquila ouviram Apolo pregando em Éfeso. Apolo era eloquente, conhecia as Escrituras, pregava com fervor. E ainda assim havia lacunas no que entendia. O que Priscila e Áquila fizeram? “Ao ouvi-lo, Priscila e Áquila o tomaram consigo e lhe expuseram o caminho de Deus com mais precisão.” (Atos 18:26). Não fizeram alarde. Não publicaram uma resposta pública. Foram direto, em particular, com o objetivo de edificar e não de envergonhar. Se você tem acesso ao seu pastor, se há abertura e relacionamento, esse é o modelo bíblico. Uma conversa respeitosa, privada, com o objetivo de contribuir, não de vencer um debate.
Quinta coisa: se não houver canal, não faça barulho desnecessário. Igrejas grandes têm uma estrutura que muitas vezes isola o pastor de qualquer interlocutor teológico real. Ninguém lê o sermão antes, ninguém questiona, ninguém empurra de volta. Se você não tem acesso ao pastor e não há mecanismo para essa conversa acontecer, a sabedoria não é ir para as redes sociais atacar a pregação ou criar um conflito que vai dividir a congregação. A sabedoria é orar por ele, continuar verificando o padrão ao longo do tempo e confiar que Deus é soberano sobre a sua própria formação espiritual, mesmo num ambiente imperfeito.
Sexta coisa: nunca pare de estudar por conta própria. O erro que o pastor comete no domingo não precisa ser o erro que você carrega para casa. Você tem acesso a comentários bíblicos, a teólogos sérios, a recursos que gerações anteriores de cristãos não tinham. Use isso. A sua formação teológica não é responsabilidade exclusiva do pastor. Você também tem obrigação de estudar, de verificar, de crescer. “Estes eram de sentimentos mais nobres do que os de Tessalônica, porque receberam a palavra com toda a avidez, examinando todos os dias nas Escrituras se estas coisas eram assim.” (Atos 17:11). Os bereanos não aceitaram nem mesmo o apóstolo Paulo sem verificar. Isso não era desrespeito. Era maturidade.
Uma última palavra
O erro que aconteceu com Levítico 6:12 é um erro que tem uma explicação simples. Hoje temos mais ferramentas do que qualquer geração anterior para preparar uma pregação com rigor. Um comentário decente sobre o Pentateuco, uma consulta ao contexto histórico do tabernáculo, uma leitura de como o sistema levítico é tratado na carta aos Hebreus, tudo isso estaria disponível em minutos. Quando isso não é feito, a pregação fica vulnerável a esse tipo de deslize.
Mas o remédio para isso não é indignação. É oração pelo seu pastor, fidelidade à sua própria formação e a disposição de contribuir quando o canal existir. A igreja não é perfeita porque é feita de gente. E gente erra. O que nos diferencia não é a ausência de erros, mas a forma como lidamos com eles quando aparecem.
O fogo do altar levítico foi apagado definitivamente na cruz. A chama que o cristão precisa é a do Espírito Santo, que não depende do nosso esforço para permanecer acesa, porque Aquele que prometeu é fiel.
“Nenhum homem é um expositor fiel da Palavra de Deus que não começa com o que o texto quer dizer antes de perguntar o que ele significa para nós hoje.” (D. Martyn Lloyd-Jones)
Carlos Belchior Júnior
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