Exegese

Cuidado: não haverá segunda chamada.

Cuidado: não haverá segunda chamada.

Segunda chamada.
Quando a porta fechar, não haverá segunda chamada. Noé pregou durante décadas sobre um evento que ninguém havia visto. Falou de água caindo do céu numa terra onde talvez nunca tivesse chovido. Construiu um barco gigantesco no meio do seco. E o mundo ao redor continuou casando, comprando, vendendo, comendo, rindo. A mensagem parecia loucura. O pregador parecia louco. Até a hora em que a água começou a subir.

E aí era tarde demais. “E fechou o Senhor a porta depois dele.” (Gênesis 7.16). Deus fechou a porta. Não, Noé. Não os anjos. Deus. E ninguém mais entrou.

O dilúvio que ninguém levou a sério. A geração de Noé não era composta de idiotas. Eram pessoas normais, ocupadas com a vida normal que as pessoas levam quando não estão pensando em Deus. Jesus descreveu essa geração sem nenhum dramatismo: “Porque, assim como nos dias antes do dilúvio, comiam e bebiam, casavam e davam em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca, e não o perceberam, até que veio o dilúvio e os levou a todos, assim será também a vinda do Filho do Homem.” (Mateus 24.38-39).

Não havia nenhum sinal óbvio de que o fim estava chegando. O sol nasceu naquela manhã, como sempre. Os mercados abriram. As conversas continuaram. E, quando a água começou a subir, a percepção de que a mensagem de Noé era verdade chegou junto com a certeza de que não havia mais nada a fazer. O momento em que você entende que estava errado foi exatamente o momento em que entender isso não serve mais para nada.

A ilusão da segunda chamada. Existe uma construção teológica muito popular no evangelicalismo contemporâneo que promete exatamente o que o dilúvio nega. A ideia funciona mais ou menos assim: Jesus volta num arrebatamento secreto, leva a Igreja, e quem ficou para trás ainda tem tempo. Sete anos de tribulação para reconsiderar. Depois de mais um milênio na Terra, com Cristo reinando fisicamente, onde mais pessoas ainda poderão se converter. Como se a volta de Cristo fosse uma espécie de alarme com botão de soneca. Como se houvesse uma segunda chamada para quem perdeu a primeira.

Essa construção não tem base bíblica sólida. E o problema não é apenas exegético. O problema é o que ela faz com a urgência do Evangelho. Se existe uma segunda chance depois da volta de Cristo, por que a pregação apostólica era tão urgente? Por que Paulo escreveu “eis agora o tempo aceitável, eis agora o dia da salvação” (2 Coríntios 6.2)? Por que o próprio Jesus usou o dilúvio como ilustração da sua volta, sendo que o dilúvio não teve segunda chamada? A porta fechou. O julgamento veio. Não havia apelação.

O que a Bíblia diz sobre a volta de Cristo? A Escritura não descreve a volta de Cristo como um processo em etapas com janelas de oportunidade distribuídas ao longo dos séculos. Descreve um evento definitivo, súbito e irreversível, e irei demonstrar por meio das escrituras sagradas, e não como invenção da minha cabeça, como alguns gostam de o fazer.

“Porque o próprio Senhor descerá do céu com alarido, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus.” (1 Tessalonicenses 4.16).

“Eis que vem com as nuvens, e todo olho o verá.” (Apocalipse 1.7).

“E, quando o Filho do Homem vier em sua glória, e todos os santos anjos com ele, então se assentará no trono da sua glória. E serão reunidas diante dele todas as nações.” (Mateus 25.31-32).

“Em um momento, em um abrir e fechar de olhos, ao som da última trombeta. Pois a trombeta soará, os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados”. (1 Coríntios 15:52).

Ele volta. Ele se assenta no trono. Ele julga as nações. Não existe na sequência desses eventos nenhuma janela de recuperação, nenhum período de segunda chance, nenhum milênio de conversões extras para equilibrar o placar. A cortina da história se encerra. O julgamento começa. E cada pessoa que está diante do trono já é o que é.

A porta que só Deus fecha. Há um detalhe em Gênesis 7.16 que merece toda a atenção. Quando Noé e sua família entraram na arca, foi o Senhor quem fechou a porta. Não foi um ato humano. Foi um ato divino. E isso significa que o momento do encerramento da misericórdia não está nas mãos dos homens. Está nas mãos de Deus.

Isso deveria produzir duas coisas ao mesmo tempo em quem leva a Bíblia a sério.

A primeira é reverência. Há um momento, determinado soberanamente por Deus, em que a oportunidade de salvação se encerra para sempre. Nenhum homem sabe quando esse momento é. Mas ele existe. E ele chegará.

A segunda é urgência. Se a porta fecha e ninguém sabe a hora, então a pregação do Evangelho não pode esperar por um momento mais conveniente. Não existe segundo turno. Não existe período de recuperação. Existe o hoje. E o hoje é a única janela que qualquer pessoa tem com garantia. “Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações.” (Hebreus 3.15).

O dilúvio como espelho. Jesus não escolheu o dilúvio como ilustração da sua volta por acaso. Escolheu porque a estrutura dos dois eventos é idêntica. Em ambos, houve aviso. Em ambos, o aviso foi ignorado pela maioria. Em ambos, chegou um momento em que a oportunidade se encerrou de forma definitiva e irreversível. Em ambos, quem estava dentro estava salvo. Quem estava fora estava perdido. E não havia mais nada a ser feito depois do fechamento da porta.

A diferença é que, no dilúvio, a arca era de madeira e só cabia uma família. Na nova aliança, a arca é Cristo, e cabe a todo aquele que crê. Mas a lógica é a mesma. Há um dentro e um fora. Há um momento em que a escolha se torna definitiva. E há uma porta que Deus fecha com a mesma soberania com que a abriu.

A pergunta que o dilúvio faz para cada geração é sempre a mesma. Você está dentro ou fora? Porque a chuva pode começar a qualquer momento.

Termino sempre com uma frase e hoje escolhi uma do pregador batista inglês. Muito influente no protestantismo reformado nos dias de hoje, meio no qual é conhecido como o “Príncipe dos Pregadores”: “Noé pregou por anos e apenas oito pessoas entraram. Não porque Deus não quis salvar mais. Porque os outros acharam que tinham tempo. Não tinham.” Charles Spurgeon.

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