23/08/2026

O que nenhum padre e pastor lhe conta (Capítulo 6)

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O que nenhum padre e pastor lhe conta (Capítulo 6). Você provavelmente já viu essa cena centenas de vezes: três reis, três presentes, três coroas e até três nomes perfeitamente definidos. O problema é que, quando abrimos Mateus 2, descobrimos algo desconcertante. Mateus não diz que eram três, não os chama de reis e não registra o nome de nenhum deles. A cena que muita gente acredita estar lendo na Bíblia é, na verdade, uma mistura entre o texto inspirado e tradições desenvolvidas séculos depois.

Isso não significa que toda tradição cristã relacionada aos magos seja necessariamente falsa ou prejudicial. O problema aparece quando deixamos de distinguir aquilo que Mateus realmente escreveu daquilo que os séculos acrescentaram à narrativa. Uma representação artística pode perfeitamente mostrar três magos diante de Jesus, porque qualquer artista precisará escolher algum número para retratar a cena. O erro começa quando essa escolha artística ou tradição devocional passa a ser apresentada no púlpito com a mesma autoridade da Escritura.

Mateus inicia seu relato dizendo: “Tendo Jesus nascido em Belém da Judeia, em dias do rei Herodes, eis que vieram uns magos do Oriente a Jerusalém” (Mateus 2:1). O evangelista fornece várias informações importantes. Jesus havia nascido em Belém, Herodes governava, aqueles homens vinham do Oriente e eram chamados de magos. Entretanto, Mateus não informa quantos eram. O texto grego utiliza o plural magoi, o que nos permite afirmar que havia mais de um, mas não nos permite avançar além disso. Poderiam ser dois, três, quatro ou um grupo muito maior. Qualquer número específico ultrapassa aquilo que o evangelista decidiu revelar.

A tradição dos três provavelmente ganhou força por uma associação bastante compreensível com Mateus 2:11, em que lemos que aqueles homens, ao encontrarem Jesus, “prostrando-se, o adoraram; e, abrindo os seus tesouros, entregaram-lhe suas ofertas: ouro, incenso e mirra”. Existem três tipos de presentes, mas Mateus nunca distribui esses presentes entre três indivíduos. O texto não diz que um homem entregou ouro, outro incenso e outro mirra. Poderiam existir dez homens oferecendo coletivamente três espécies de presentes, e a narrativa permaneceria exatamente como Mateus a escreveu.

Esse detalhe é importante porque mostra como uma conclusão possível pode, com o passar do tempo, transformar-se em uma certeza que o texto nunca estabeleceu. A arte cristã antiga confirma que não existia inicialmente uma tradição absolutamente uniforme sobre o número dos magos. Há representações antigas com dois, três, quatro e até mais personagens, enquanto algumas tradições orientais chegaram a falar em doze. Essa variedade é historicamente significativa porque demonstra que a Igreja antiga não possuía uma informação apostólica universalmente preservada afirmando que aqueles homens eram exatamente três.

Portanto, dizer que eram três não constitui necessariamente um absurdo histórico, pois três continua sendo uma possibilidade. O problema é afirmar que a Bíblia diz que eram três, porque isso simplesmente não é verdade. Há uma diferença entre uma reconstrução tradicional possível e uma afirmação exegética. Quando a Escritura permanece em silêncio, precisamos aprender a permanecer em silêncio com ela, especialmente quando estamos ensinando em nome dela.

Há ainda outro elemento profundamente enraizado no imaginário cristão que Mateus também não registra: aqueles homens não são chamados de reis. O termo utilizado pelo evangelista é magoi. Essa palavra possuía uma história complexa no mundo antigo e podia estar associada a uma classe sacerdotal oriental, a sábios, intérpretes de sonhos e especialistas em fenômenos celestes. Dependendo do período e do contexto, magos também poderiam adquirir sentidos negativos, relacionados à magia, como vemos em outras passagens do Novo Testamento. Em Mateus 2, porém, o contexto aponta para homens orientais ligados à observação dos céus e capazes de interpretar o aparecimento da estrela como sinal do nascimento de um rei. O que o termo certamente não significa por si mesmo é “reis”.

Isso não significa, contudo, que a posterior associação dos magos com a realeza tenha surgido do nada. Aqui precisamos ser teologicamente cuidadosos, porque existe uma razão bíblica para que os cristãos tenham enxergado naquela cena ecos das profecias messiânicas do Antigo Testamento. O Salmo 72 fala de reis trazendo presentes e prostrando-se diante do rei messiânico: “Os reis de Társis e das ilhas trarão presentes; os reis de Sabá e de Sebá oferecerão dons. E todos os reis se prostrarão perante ele” (Salmo 72:10,11). Isaías 60 também descreve as nações caminhando em direção à luz e menciona reis, ouro e incenso: “As nações se encaminharão para a tua luz, e os reis, para o resplendor que te nasceu” (Isaías 60:3), enquanto pouco depois anuncia que povos virão trazendo “ouro e incenso” (Isaías 60:6).

Essas aproximações não devem ser descartadas como meras invenções medievais, porque fazem sentido dentro da teologia bíblica de Mateus. O próprio evangelista apresenta repetidamente Jesus como cumprimento das Escrituras de Israel, e a chegada dos magos funciona como uma antecipação da inclusão dos gentios no alcance do Reino. Homens vindos das nações chegam para honrar o Rei dos judeus, enquanto Herodes, que estava dentro de Israel, procura matá-lo. Nesse sentido, Salmo 72 e Isaías 60 oferecem um pano de fundo teológico extremamente apropriado para a cena. O erro acontece apenas quando passamos da afirmação de que reis das nações haveriam de honrar o Messias para a afirmação histórica de que aqueles magos individualmente possuíam coroas e tronos. A primeira afirmação pode fazer parte de uma leitura tipológica e messiânica legítima. A segunda não está registrada em Mateus.

Essa distinção também nos permite compreender melhor os escritores cristãos antigos. Já no início do século III, Tertuliano relacionava os magos com textos veterotestamentários referentes a reis, demonstrando que essa interpretação é muito antiga. Entretanto, a transformação definitiva dos magos em “reis” desenvolveu-se gradualmente e parece ter se consolidado posteriormente. Estudos sobre a recepção da narrativa observam que a atribuição de realeza aos magos estava estabelecida por volta do início do século VI, embora suas raízes exegéticas fossem anteriores.

Justino Mártir nos oferece outro testemunho interessante ainda no século II. Em seu diálogo com Trifão, ao comentar a visita, ele menciona os magos vindos da Arábia, sua chegada a Belém e os presentes de ouro, incenso e mirra, mas não diz que eram três. Isso é importante porque mostra que um importante escritor cristão do século II conhecia e utilizava a narrativa dos magos sem preservar qualquer informação sobre um número três como se fosse uma tradição apostólica indispensável. Ao mesmo tempo, Justino identifica sua procedência com a Arábia, algo que o próprio Mateus também não especifica, pois o Evangelho diz apenas que vieram “do Oriente”. Assim, o próprio testemunho patrístico já nos ensina a separar cuidadosamente o texto canônico das interpretações desenvolvidas sobre ele.

Os famosos nomes Gaspar, Melchior ( após alguns séculos, virou Belchior) e Baltasar pertencem a uma etapa ainda posterior dessa tradição. Nenhum deles aparece no Novo Testamento, e não existe qualquer texto apostólico que identifique individualmente os magos. Além disso, diferentes tradições cristãs preservaram nomes diferentes, o que, por si só, já demonstra que não estamos diante de uma informação histórica transmitida de maneira uniforme desde os apóstolos. No Ocidente, as formas que deram origem a Gaspar, Melchior e Baltasar aparecem em fontes da Antiguidade tardia e início da Idade Média, enquanto tradições siríacas, armênias e outras utilizaram conjuntos completamente diferentes de nomes.

Existe ainda outro detalhe frequentemente esquecido nos presépios. Mateus não descreve os magos chegando ao estábulo na mesma noite em que Jesus nasceu. Quando relata o encontro, ele diz que os magos, “entrando na casa, viram o menino com Maria, sua mãe” (Mateus 2:11). O termo utilizado para Jesus nesse trecho é paidion, criança, e não existe no relato de Mateus a cena dos pastores, da manjedoura e dos magos reunidos simultaneamente. Lucas narra os pastores chegando na noite do nascimento e encontrando Jesus na manjedoura (Lucas 2:8 a 16), enquanto Mateus narra posteriormente os magos entrando numa casa. Não temos dados suficientes para determinar com precisão quanto tempo havia transcorrido, mas o massacre ordenado por Herodes contra os meninos de dois anos para baixo, calculado segundo o tempo que havia apurado dos magos (Mateus 2:16), indica que não devemos simplesmente fundir as duas narrativas como se todos os personagens tivessem chegado ao mesmo tempo.

Essa observação não significa que Jesus necessariamente tivesse quase dois anos quando os magos chegaram. O decreto de Herodes provavelmente estabeleceu uma margem de segurança baseada na informação recebida e, portanto, não pode ser utilizado como uma espécie de certidão cronológica da idade de Cristo. O que podemos afirmar é apenas que Mateus não obriga o leitor a colocar os magos ao lado da manjedoura na própria noite do nascimento. Novamente, a precisão bíblica exige que não transformemos uma possibilidade em certeza.

Quando retiramos essas camadas tradicionais da narrativa, entretanto, Mateus 2 não perde beleza. Acontece justamente o contrário, porque começamos a perceber aquilo que o evangelista realmente deseja destacar. O centro da passagem não está no número dos viajantes, em seus nomes ou na cor de suas roupas, mas na identidade daquele que eles foram procurar. Eles chegam perguntando: “Onde está o recém-nascido Rei dos judeus? Porque vimos a sua estrela no Oriente e viemos para adorá-lo” (Mateus 2:2). A tensão do capítulo nasce porque esse título provoca duas respostas completamente diferentes. Os estrangeiros desejam adorar o Rei, enquanto Herodes deseja eliminá-lo.

Mateus constrói uma ironia teológica poderosa. Os principais sacerdotes e escribas conheciam a profecia. Quando Herodes perguntou onde o Cristo deveria nascer, eles responderam corretamente, citando Miqueias e apontando para Belém (Mateus 2:4-6). Eles possuíam a informação bíblica correta, estavam geograficamente próximos do local e sabiam exatamente onde procurar, mas o texto não registra que tenham ido até Jesus. Os magos, por sua vez, eram estrangeiros vindos de longe e possuíam muito menos revelação acerca das Escrituras de Israel, porém seguiram aquilo que haviam recebido até encontrarem o menino e se prostrarem diante dele.

Essa inversão se encaixa perfeitamente num dos grandes movimentos teológicos do Evangelho de Mateus. Jesus é o Messias de Israel, filho de Davi e filho de Abraão, mas sua missão alcançará todas as nações. O Evangelho que começa mostrando gentios vindo de longe para adorá-lo terminará com o Cristo ressuscitado ordenando aos discípulos: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações” (Mateus 28:19). Os magos aparecem, portanto, não como personagens decorativos de uma história natalina, mas como uma antecipação narrativa daquilo que Mateus mostrará plenamente ao final de seu Evangelho.

Por isso, a correção da tradição não precisa assumir a forma de um ataque às pessoas que cresceram vendo três reis no presépio. O objetivo deve ser mais profundo: ensinar o cristão a distinguir Escritura, inferência, tradição e interpretação. Paulo recomenda a Timóteo que se apresente como obreiro aprovado, “que maneja bem a palavra da verdade” (2 Timóteo 2:15). Manejar bem a Palavra não significa apenas defender aquilo que ela diz, mas também recusar-se a atribuir a ela aquilo que ela não diz.

Há inclusive um princípio apologético importante aqui. A defesa da fé cristã não precisa proteger lendas como se fossem doutrinas bíblicas. Se uma tradição não possui fundamento textual, podemos reconhecê-la como tradição sem qualquer medo de enfraquecer o cristianismo. A autoridade da fé não repousa sobre Gaspar, Melchior e Baltasar, sobre três coroas ou sobre determinada composição de um presépio. Nossa autoridade repousa naquilo que Deus efetivamente revelou. A fé cristã não precisa de invenções para ser bela, porque a verdade revelada já possui beleza suficiente.

Assim, quando alguém perguntar quantos magos visitaram Jesus, a resposta biblicamente responsável será que não sabemos. Sabemos que eram mais de um, porque Mateus utiliza o plural. Sabemos que vieram do Oriente, que procuravam o Rei dos judeus, que foram conduzidos até Jesus, que se prostraram diante dele e que lhe ofereceram ouro, incenso e mirra. Podemos reconhecer a riqueza teológica das antigas associações com Salmo 72 e Isaías 60, podemos estudar as tradições cristãs que posteriormente os chamaram de reis e podemos até apreciar representações artísticas com três personagens. O que não podemos fazer é transformar três presentes em três pessoas e depois afirmar que essa informação veio da Bíblia.

No final, esse pequeno detalhe nos conduz a uma questão muito maior do que o número dos magos. Ele nos obriga a perguntar se estamos realmente lendo a Escritura ou apenas reconhecendo nela imagens que aprendemos desde crianças. Às vezes a tradição repete determinada cena por tanto tempo que nossos olhos passam por cima do texto sem perceber que ele nunca disse aquilo. Voltar a Mateus 2 é lembrar que nossa tarefa não é tornar a Bíblia mais completa com aquilo que imaginamos estar faltando, mas permitir que ela diga exatamente aquilo que Deus decidiu revelar.

Carlos Belchior Júnior

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