Nenhum pastor ou padre; existe uma afirmação que a Igreja Católica repete há séculos como se fosse tão certa quanto a Ressurreição: Pedro foi a Roma, liderou a Igreja local, morreu crucificado de cabeça para baixo no reinado de Nero e está enterrado exatamente onde a Basílica de São Pedro foi construída. Sobre essa base repousa toda a arquitetura do papado. Tire essa pedra e a construção inteira pede revisão. Por isso, o que os registros do século I realmente dizem sobre essa questão não costuma aparecer nas homilias nem nas aulas de catecismo. Não porque os padres e pastores sejam desonestos. Mas por que algumas perguntas custam caro demais para serem feitas em público?
O ponto de partida honesto é este: o Novo Testamento não registra Pedro em Roma. Em nenhum momento. Paulo escreveu a carta mais longa da história do cristianismo primitivo, endereçada exatamente à Igreja de Roma. Listou mais de duas dezenas de nomes para saudar, mencionou colaboradores, amigos, casais, famílias e servidores da comunidade local. Pedro não é citado. Nem uma vez. Se Pedro fosse o líder daquela Igreja, o silêncio de Paulo seria inexplicável. Seria como escrever uma carta extensa à sede de uma empresa e não mencionar o presidente.
“E a nós, que parecíamos ser alguma coisa… nada nos acrescentaram. Pelo contrário, quando viram que eu havia sido encarregado do evangelho para os incircuncisos, como Pedro para os circuncisos… concordaram em que nós fôssemos para os gentios, e eles para os circuncisos” (Gálatas 2.6-9). Paulo descreve aqui um acordo de divisão territorial que é geograficamente claro: Pedro ficaria com os judeus, Paulo com os gentios. Roma era território de Paulo. A divisão não era apenas estratégica, era teológica e apostólica.
Há ainda o argumento do silêncio em Atos dos Apóstolos. Lucas, que era historiador cuidadoso e acompanhou Paulo em várias viagens, narra a chegada de Paulo a Roma com considerável detalhe no capítulo 28. Descreve a recepção da comunidade cristã local, o alojamento e os dois anos de pregação na cidade. Pedro não aparece. Se ele estivesse em Roma nesse período, ou tivesse liderado a comunidade cristã da capital do império nos anos anteriores, Atos simplesmente ignorou o fato mais relevante da história daquela Igreja.
A primeira menção explícita de Pedro em Roma vem de Clemente de Roma, provavelmente no final do século I, em torno do ano 96. Clemente escreve que Pedro e Paulo sofreram “entre nós”, o que muitos interpretam como uma referência a Roma. O problema é que a frase é ambígua o suficiente para ser debatida até hoje, e Clemente não diz que Pedro foi bispo de Roma, não diz por quanto tempo esteve lá, não diz que fundou a Igreja local. Diz apenas que sofreu. Isso é muito diferente da narrativa que o catolicismo construiu ao longo dos séculos.
Inácio de Antioquia, escrevendo por volta de 110 d.C. para a Igreja de Roma, menciona Pedro e Paulo com autoridade sobre os romanos, mas tampouco os chama de bispos locais. A linguagem de Inácio é de honra apostólica, não de episcopado estabelecido. E Inácio sabia muito bem o que era um bispo, porque ele mesmo era um. A distinção importa.
Dionísio de Corinto, por volta de 170 d.C., escreve que Pedro e Paulo “plantaram” as Igrejas de Corinto e de Roma juntos. Mas plantar uma igreja no vocabulário do século II não significa necessariamente liderança local permanente. Paulo certamente não liderou Corinto como bispo residente. A metáfora é de origem apostólica, não de governo eclesiástico contínuo.
Tertuliano, Orígenes e Eusébio de Cesareia, todos do século III ou início do IV, começam a afirmar a presença de Pedro em Roma com mais segurança. Mas aqui é onde a história fica complicada: esses autores escrevem no período em que o bispado de Roma já estava consolidando sua autoridade sobre as demais Igrejas. O interesse teológico e político na tradição petrina romana era alto. Não significa que estavam mentindo, mas significa que estavam construindo narrativa em um momento em que essa narrativa tinha valor institucional enorme.
As escavações sob a Basílica de São Pedro, realizadas a partir de 1939 a pedido de Pio XII, encontraram restos mortais que o Vaticano identificou como sendo de Pedro em 1968. A arqueóloga Margherita Guarducci foi quem trabalhou na identificação. Outros estudiosos, incluindo arqueólogos católicos, contestaram as conclusões. Os ossos não podem ser datados com precisão suficiente para o século I; a identificação dependeu de uma inscrição parcial e ambígua, e o ambiente arqueológico do local foi profundamente perturbado ao longo dos séculos por reformas e construções. Não é que os ossos provem que Pedro nunca esteve em Roma. É que eles não provam nada com a certeza que o anúncio de Paulo VI em 1968 sugeria.
O que tudo isso tem a ver com o papado? Tudo. A doutrina da sucessão apostólica petrina, que é o fundamento canônico da autoridade papal sobre a Igreja universal, depende de Pedro ter estado em Roma, liderado a Igreja local e estabelecido uma linha de sucessão. Se Pedro não foi a Roma ou esteve lá apenas brevemente sem estabelecer episcopado, a base histórica do papado não é o que o catolicismo afirma que é. Não é uma questão menor de liturgia ou devoção. É a questão central da eclesiologia católica.
E tem um dado que raramente entra nessa conversa: o próprio Novo Testamento nunca atribui a Pedro autoridade sobre as demais igrejas. Em Mateus 16.18, Jesus diz: “Sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”, e a disputa exegética sobre se a pedra é Pedro ou a confissão de Pedro está longe de ser resolvida. Os próprios pais da Igreja não eram unânimes. Orígenes, por exemplo, entendia a pedra como a fé confessada, não como a pessoa do apóstolo. Crisóstomo seguia linha semelhante. A interpretação que coloca Pedro como fundação pessoal e exclusiva da Igreja universal e daí deriva autoridade episcopal sobre Roma é uma leitura que se consolidou muito mais tarde do que os manuais católicos costumam admitir.
Para o debate protestante e evangélico, isso não é apenas argumento de controvérsia. É uma questão de onde a autoridade da Igreja repousa. Se ela repousa na Palavra, como Calvino e Lutero defenderam, então nenhuma tradição posta-tardia sobre a presença de Pedro em Roma pode fundar um magistério infalível. “Não sois mais estrangeiros e forasteiros, mas concidadãos dos santos e membros da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo o próprio Jesus Cristo a pedra angular” (Efésios 2.19-20). A pedra angular é Cristo. O fundamento é apostólico no sentido plural. A autoridade é da mensagem, não da cadeira.
O que os registros do século I dizem, com honestidade, é que não temos evidência documental de que Pedro esteve em Roma antes da metade do século II, que Paulo não o menciona na carta aos Romanos, que Atos silencia sobre sua presença na capital, e que as menções mais diretas começam a aparecer exatamente quando a Igreja de Roma estava construindo sua primazia sobre as demais comunidades cristãs. Isso não prova que Pedro nunca foi a Roma. Mas prova que a certeza com que essa afirmação é feita não tem o suporte histórico que pretende ter.
“Se Pedro fundou a Igreja de Roma, é estranho que Paulo não o saiba. E se Paulo sabia e não disse, então temos um problema maior ainda.” — Adolf von Harnack, History of Dogma, Vol. I
Carlos Belchior Júnior
João Pessoa, Paraíba.
“Roma Contra Cristo”
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