
Escrever teologia: tem um momento que todo escritor evangélico brasileiro conhece bem. É quando você fecha a conta do mês, olha para o extrato da plataforma e vê que vendeu quarenta e três livros. Quarenta e três pessoas compraram o que você levou meses escrevendo. E o valor depositado não paga nem uma semana de compras no mercado. Cinco reais por livro. Quando tira a comissão da plataforma, às vezes menos que isso.
Esse é o cenário real. Não o que aparece nos posts de motivação de escritores. O que acontece de verdade na vida de quem escreve teologia no Brasil, onde o hábito de leitura é uma raridade e onde o mercado editorial evangélico está dominado por obras de autoajuda temperadas com uma pitada de versículo.
Escrevo porque não consigo não escrever. Mas convém ser honesto sobre o que isso custa.
A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, edição de 2020, confirmou o que qualquer livreiro do interior já sabe: metade da população brasileira não leu sequer um livro no último ano. Metade. Em um país de mais de 210 milhões de pessoas, a média de leitura de quem se declara leitor é de cinco livros por ano. E olha que essa média já exclui os que não leram nada.
Na comunidade evangélica, o quadro tem suas especificidades. O evangélico brasileiro leu muito a Bíblia em algum período da vida, mas raramente avançou para os comentários, para a teologia sistemática, para a história da Igreja. O consumo de conteúdo hoje é majoritariamente audiovisual: pregação no YouTube, podcast de 20 minutos, mensagem no Instagram com versículo e fundo desfocado. Isso não é julgamento, é constatação.
“Pois virá o tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo coceira nos ouvidos, amontoarão para si mestres segundo os seus próprios desejos.” (2 Timóteo 4.3) Paulo escreveu isso para Timóteo no primeiro século. Nunca foi tão atual.
O problema não é que o povo evangélico seja menos inteligente ou menos capaz. O problema é que ninguém formou o hábito. A própria pregação evangélica brasileira, em grande parte, abandonou a exposição densa do texto em favor de narrativas emocionais e princípios de vida. Quando o pastor não lê, a congregação não lê. Quando a congregação não lê, o escritor que produz teologia séria está escrevendo para um mercado que ninguém cultivou.
Vou ser direto porque acho que precisamos parar de romantizar esse assunto. Publico pela Amazon KDP, UICLAP e Clube dos Autores, que são hoje os caminhos mais democráticos para escritores independentes no Brasil. A royalty para livros em formato digital varia entre 15% do preço de venda, dependendo da faixa de preço escolhida. Em livros físicos impressos por demanda, o modelo Print on Demand absorve os custos de impressão e o que sobra para o autor é frequentemente irrisório.
Um livro de 250 páginas vendido a R$ 49,90 em formato físico pode gerar ao autor algo entre R$ 4,00 e R$ 7,00 por cópia, depois dos descontos de impressão e comissão. Para esse livro pagar 1.000 horas de trabalho, a um salário-mínimo de equivalência, o escritor precisaria vender mais de 3.000 cópias. No Brasil. Em teologia reformada. Em um mercado em que o livro mais vendido de teologia séria raramente ultrapassa algumas centenas de cópias fora dos ambientes acadêmicos. Isso não é pessimismo. É aritmética.
E no ambiente das plataformas como Hotmart e Kiwify, o modelo é um pouco melhor em royalties, mas você agora é também o seu próprio departamento de marketing, de design, de atendimento ao cliente e de suporte técnico. Você escreve o livro e depois passa meses tentando fazer o mundo saber que ele existe.
Por que então continuar? Aqui é onde a fé entra de verdade, não como slogan, mas como fundamento operacional da decisão.
“Portanto, meus amados irmãos, sede firmes e constantes, sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que o vosso trabalho não é vão no Senhor.” (1 Coríntios 15.58) Paulo não escreveu isso para pessoas que estavam vendo resultado imediato. Escreveu para pessoas que plantavam em solo árido e não sabiam quando ou se a chuva viria. O “não é vão” do versículo não é uma promessa de retorno financeiro, é uma afirmação sobre a economia do Reino, que não funciona com as mesmas métricas da economia de mercado.
Continuo escrevendo porque a fé que não pode ser articulada é uma fé vulnerável. O evangélico que só tem emoção e não tem argumento será derrubado na primeira pergunta difícil. O jovem que cresce ouvindo que basta ter fé, sem nunca entender o que a fé pressupõe e sustenta, está desprotegido diante de um mundo que sabe fazer perguntas que a euforia de uma reunião de louvor não responde.
Escrevo porque a herança dos Reformadores, dos Pais da Igreja, dos apologistas dos primeiros séculos não pode ficar trancada em língua estrangeira, acessível só a quem leu inglês ou latim. Inácio de Antioquia, Justino Mártir, Atanásio de Alexandria, João Calvino, Martin Luther, Jonathan Edwards. Essas vozes precisam chegar ao pastor do interior do Nordeste, que nunca teve acesso a um seminário. Escrevo para ser uma ponte e escrevo porque Deus não me deu outra opção. Quem tem o dom da escrita e o enterra por medo de que o mercado não responda está cometendo o erro do servo que escondeu o talento. “Senhor, sabia que és um homem severo… e, com medo, fui esconder o teu talento na terra.” Aqui está o que é teu.” (Mateus 25.24-25). A resposta do senhor não foi de compreensão. Foi de julgamento.
O que o escritor evangélico enfrenta além das finanças? Não é só dinheiro. Há outras pedras no caminho que ninguém conta nos bastidores. Há o isolamento intelectual. Escrever teologia séria no Brasil é um trabalho solitário. O círculo de pessoas que pode dar feedback de qualidade sobre um argumento apologético ou sobre a estrutura de um capítulo de cristologia é pequeno. E parte desse círculo está ocupada demais com suas próprias produções.
Há a pressão do mercado neopentecostal. O que vende no segmento evangélico brasileiro não é Calvino, é prosperidade. Não é Agostinho, é autoconsciência emocional com verniz espiritual. O escritor que recusa esse caminho está conscientemente escolhendo um nicho menor. Isso tem um custo psicológico que não aparece em nenhuma análise de mercado.
Há também a invisibilidade algorítmica. As plataformas de venda e os buscadores favorecem autores com volume de avaliações, com histórico de vendas, com capacidade de investimento em tráfego pago. O escritor que não tem verba para impulsionar suas obras está competindo no mesmo ambiente que editoras com departamentos inteiros de marketing digital, com orçamentos que ultrapassam o que ele vai ganhar nos próximos dez anos de vendas.
E há a pirataria. O livro que levou oito meses para escrever aparece em PDF num grupo de WhatsApp no mesmo mês do lançamento. A pessoa que baixou o PDF às vezes nem leu. Mas também não comprou. Esse é o ecossistema.
O que sustenta quem persiste? Existe uma teologia do trabalho fiel que precisa ser recuperada no meio evangélico e que se aplica diretamente ao escritor que produz sem ver retorno imediato. Tiago Holanda, missionário entre os xavantes, nunca viu a maioria das conversões que resultaram do trabalho que plantou. William Carey passou anos no campo missionário antes do primeiro batismo. Ele não sabia, quando traduzia as Escrituras para o bengali, quantas pessoas aquele trabalho alcançaria. Ele só sabia que era chamado para fazê-lo.
Fidelidade não é o mesmo que sucesso visível. Esse é um conceito que a cultura evangélica contemporânea perdeu de vista, porque assimilou a teologia da prosperidade, mesmo quando nega a teologia da prosperidade. Quando medimos o valor de um ministério pelos números de seguidores, de vendas e de compartilhamentos, estamos usando a régua errada.
“Quem planta e quem rega são a mesma coisa; mas cada um receberá o seu galardão segundo o seu próprio trabalho.” (1 Coríntios 3.8). O galardão é de Deus. O trabalho é nosso. Não é nossa responsabilidade controlar a colheita. É nossa responsabilidade garantir que a semente seja boa.
Uma palavra para quem está pensando em desistir. Se você está nesse lugar, se está olhando para os números e pensando se vale a pena continuar, quero te dizer algo que não é motivação barata. Não sei se os números vão melhorar. Não tenho como prometer que seu livro vai vender mil cópias no próximo ano. O mercado não obedece a promessas espirituais de abundância.
Mas sei que o livro que você está hesitando em terminar pode ser exatamente o que um leitor anônimo em alguma cidade do Brasil precisa ler para não abandonar a fé. Esse leitor não vai te mandar uma mensagem. Você não vai saber que ele existiu. Mas ele existiu.
A correspondência do apóstolo Paulo foi escrita para comunidades específicas com problemas específicos do primeiro século. Nenhum dos destinatários originais sabia que aquelas cartas seriam copiadas, traduzidas, comentadas e lidas por dois mil anos. Paulo escrevia pela obediência, não pela métrica. Essa é a herança do escritor cristão fiel. Trabalhar como se o resultado dependesse de você. Confiar como se o resultado dependesse de Deus. Porque, no fundo, é exatamente assim que funciona.
Eu não peço riqueza. Não peço fama. Peço saúde. Saúde para escrever. Saúde para publicar. Saúde para cumprir o que já está projetado, estruturado e esperando apenas as minhas mãos e a misericórdia de Deus.
São 55 livros com projeto e estrutura prontos, mais os 66 comentários bíblicos, um para cada livro das Escrituras. 121 livros no total. Lançando 3 por ano, são mais de 40 anos de trabalho. Lançando 6, ainda assim são mais de 20 anos. Não é ambição. É vocação. E vocação não se negocia.
Talvez eu não consiga ver tudo publicado. Talvez o tempo não seja suficiente. Mas isso não me paralisa, porque sei que o que Deus começou, Ele não abandona. “O Senhor cumprirá o seu propósito em mim.” (Salmo 138.8)
E se eu não chegar até o fim, um dos meus filhos chegará por mim.
Há algo profundamente bíblico nisso. Davi não construiu o templo, mas Salomão o construiu. A visão pertencia a Davi. A execução pertenceu ao filho. O propósito de Deus não morre com o homem. Ele atravessa gerações.
Por isso eu escrevo com urgência, mas sem ansiedade. Com fé, mas sem ilusão. Faço a minha parte. Deus faz a dele. E o que sobrar, fica para quem vem depois de mim. Essa é a herança que quero deixar. Não bens materiais. Livros. Palavras. Verdade escrita e preservada para quem ainda não nasceu.
William Tyndale (que foi executado por traduzir a Bíblia para o inglês):
“Desafio o Papa e todas as suas leis.” Se Deus me poupar a vida, dentro de muitos anos farei com que um menino que ara a terra conheça as Escrituras melhor do que você.”
Carlos Belchior Júnior
