Apologética

Vaidade e Poder – Júnior Belchior

Vaidade

Apesar de mais de vinte e cinco anos dedicados à política e treze campanhas consecutivas, posso afirmar com propriedade que poder e vaidade são faces da mesma moeda. A experiência me ensinou que, embora muitos acreditem que o político almeja o poder em si, o que verdadeiramente o move é a exaltação pessoal que a posição lhe confere. Basta observar a profusão de retoques digitais nos materiais de campanha, onde a busca pela imagem idealizada suplanta a apresentação da realidade. Essa ânsia por reconhecimento e admiração transcende a esfera política, manifestando-se em diversas profissões onde a exposição pessoal é proeminente, como no universo dos influenciadores digitais.

A linha tênue que separa a busca por influência e a simples necessidade de validação é facilmente cruzada, especialmente quando a personalidade não está solidamente formada. Indivíduos suscetíveis à influência externa podem, em sua busca incessante por aprovação, desvirtuar seus valores e ações em nome de uma imagem construída para o público. Contudo, essa crítica não se direciona ao direito individual buscar o sucesso da maneira que julgar conveniente, mas sim à observação de um fenômeno social onde a vaidade, por vezes, tolda o discernimento e as prioridades.

No âmago da política, a vaidade assume proporções épicas, desencadeando disputas internas acirradas e, por vezes, autodestrutivas. A escolha de um candidato para um cargo executivo, que deveria ser um processo estratégico baseado em dados e análises, frequentemente se transforma em um campo de batalha de egos inflacionados. Testemunhei discussões e desavenças motivadas puramente pela ânsia de um indivíduo sobressair ao outro, um cenário caótico que mina a unidade e a eficácia dos partidos. Essa competição exacerbada, alimentada pela vaidade, muitas vezes precede a disputa com outras legendas, enfraquecendo o próprio grupo antes mesmo do confronto externo.

Essa batalha pela supremacia individual não se restringe aos bastidores partidários; ela se estende à esfera pública, onde a tentativa de eclipsar adversários e angariar apoio se torna um jogo de persuasão e, por vezes, de desqualificação. A vaidade impulsiona a incessante busca por reconhecimento, por manchetes favoráveis e pela demonstração de superioridade. Curiosamente, essa mesma pulsão narcísica se manifesta desde os primeiros anos de vida, no ambiente escolar, onde a competição por notas, por objetos e pela admiração dos colegas revela a precoce internalização de valores centrados na comparação e na busca por distinção. O capitalismo, com sua lógica de consumo e condição, certamente contribui para a exacerbação dessa cultura da vaidade, muitas vezes disfarçada sob o verniz de uma saudável competição.

Em contraste com a ostentação da vaidade, existe uma forma de poder mais silenciosa e intrínseca, exercida por aqueles que não necessitam de alarde ou reconhecimento público para sentir sua influência. Esses “poderosos” genuínos encontram satisfação na capacidade de agir e de obter resultados, sem a necessidade de alimentar um ego insaciável. A busca incessante por holofotes e a ânsia pelos “quinze minutos de fama” são, geralmente, características daqueles que ainda não se estabeleceram em seu poder, uma espécie de “novo-rico” da influência que se deslumbra com as primeiras conquistas. Assim, o cenário político e social é composto por uma complexa interação entre o poder em sua essência, a busca vazia pela vaidade e a perigosa combinação de ambos.

A sociedade, paradoxalmente, muitas vezes idolatra figuras imersas nessa dinâmica de poder e vaidade, elevando-as a um patamar quase divino. Essa carência por heróis e modelos a serem seguidos leva à idealização de personalidades midiáticas, nem sempre merecedoras de tal admiração. Contudo, é fundamental discernir que a verdadeira figura heroica, aquela que oferece um exemplo genuíno de sacrifício e abnegação, reside em valores muito mais profundos e desinteressados. A vaidade, como bem alertou Machado de Assis, é um princípio de corrupção, tanto no âmbito pessoal quanto no coletivo.

Termino como sempre com uma frase, hoje escolhi uma frase de Machado de Assis: “A vaidade é um princípio de corrupção”.

Júnior Belchior.

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