Apologética

Pai – Júnior Belchior

Pai

Apesar dos mais de vinte anos que meu pai falecera, nunca escrevi nada sobre o assunto, apenas deixei o sentimento da falta imergir e devastar meu psiquê. É bem verdade que a morte é inevitável e temos que aceitá-la de qualquer maneira. O que me deixou atônito não foi a mera morte de um pai que faz tremenda falta por tudo que representava, mas sim como tudo ocorreu. Eu ainda não tinha vinte e um anos, quando aconteceu o que parecia evitável. Apesar de ter algumas doenças graves, como diabete, insuficiência renal e cardíaca, meu pai tinha recursos para realizar o tratamento que quisesse onde quisesse; o problema foi não o querer.

Papai tinha cinquenta e cinco anos, quando veio a óbito (bastante jovem, podemos dizer) e eu vinte anos. Ainda hoje recordo-me de várias conversas entre família tentando fazer com que o mesmo fosse se tratar nos melhores hospitais e com os melhores médicos que o mundo dispunha. No entanto, a depressão já estava dominando suas vontades e iniciativas e ele, com a inteligência que lhe era peculiar, recusava tratamento alegando que não queria usar seus recursos para tal. Na época eu não estava interessado em tal sacrifício, cheguei inclusive a argumentar que o importante seria a restauração da sua saúde e que isso faria com que ele ainda tivesse um bom tempo para recuperar o gasto para tal, porém, devido à depressão ele não se dobrava a essa tese. Ele simplesmente não queria mais viver.

Tal manifestação caiu como uma bomba na minha cabeça e certamente na de todos os meus irmãos que testemunharam, tal frase. Não é fácil, aos vinte anos, você ouvir da boca de um pai que ele não quer mais viver, ou seja, não quer mais saber das consequências desse ato na vida dos seus. A situação foi tão difícil, que foi naquele momento que vi na cara dos meus irmãos o lagrimejar do caos anunciado. A sensação de impotência era devastadora em todos nós. Nesse ponto, papai já estava morando com meu irmão mais velho e eu no edifício ao lado com meu irmão mais novo. Recebi a notícia de seu falecimento da forma mais abrupta possível: o motorista por volta das cinco da manhã deu um grito em direção à minha janela dizendo: “Júnior, se arruma que ligaram para dizer que seu pai morreu”. Sinceramente, não poderia haver pior maneira de ouvir o que nenhum ser humano deseja.

Fomos eu e meu irmão até ao hospital e lá adentrei na “pedra” local onde fica o corpo para ser limpo e vestido para consumar o velório e o sepultamento. Confesso que nunca vi imagem mais dolorida que aquela: seu herói, completamente desnudo na pedra fria, completamente morto. Naquele momento, o mundo acabava de parar seu movimento de rotação e translação. Ao sair daquela situação, fomos escolher o caixão, coisa que também não é fácil, mas era necessário o fazer e assim o fizemos. Então o velório começou, muitas pessoas se fizeram presentes, o padre falou, o afilhado de papai também fez questão de ler um trecho bíblico e logo em seguida fomos sepultá-lo.

Enquanto o caixão descia, as lágrimas escorriam na face a cada duas até molhar parte da camisa que eu estava. É nesse momento que você começa a sentir parte da ficha cair e um filme vai passando lentamente na sua mente já em frangalhos. É impossível não questionar a Deus nesse momento, mas hoje, com calma, tempo e reflexão, tento encarar tal acontecimento como, além de inevitável, vontade absoluta de nosso pai eterno, pois nenhuma folha cai da árvore sem o seu consentimento. Ao retornar para casa, a outra parte da ficha começa então a cair e você se dá conta de que o amparo e a proteção de ter um pai se findaram naquele momento, você passa a não mais contar com a certeza de que o amanhã não está mais garantido como antigamente e que seu herói partira.

Vinte e poucos anos depois, ainda há dias que me lembro dos momentos de alegria e até os de tristeza que tivemos juntos, até de apanhar você sente falta. A verdade é que nunca me recuperei daquele dia, que fui acordado aos gritos, avisando que meu pai havia morrido e que a partir do mesmo dia, a vida iria começar a ficar dezenas de vezes mais difícil. A morte de meu pai, nunca foi de fato concluída por mim, parece que estou esperando uma volta dele do trabalho e isso é além de uma tortura uma sensação de se autoenganar, imaginando algo que nunca irá acontecer. Hoje, ele completaria setenta e nove anos, idade ainda possível para que estivesse vivo, não fosse a vontade de um Deus, que tudo sabe, que tudo vê e que tudo pode.

A vontade do Senhor foi consumada, não existe e nem pode haver questionamentos a um Deus que deu seu filho unigênito por todos nós.

Termino como sempre com uma frase, e hoje escolhi uma que ouvi algumas vezes pelo meu pai e nunca a esqueci: “O que vale na vida, é a vida que se leva”.

Obrigado Pai, por cada ensinamento, cada palavra e por cada momento que pudemos estar juntos.

Júnior Belchior.

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