Cristologia

A Graça Como Causa, as Obras Como Consequência – Júnior Belchior

Graça

Hoje, lendo e ouvindo algumas pregações como faço rotineiramente, escutei o ilustre Pastor Hernandes Dias Lopes, a quem considero um dos melhores pastores do Brasil. Além de uma formação invejável, com mestrado e doutorado na Europa e nos EUA e mais de 100 livros publicados, ele afirmou algo fundamental: não iremos para o céu apenas por ajudar os pobres.

​E essa é a verdade, nua e crua, como deveria sempre ser dita nas diversas igrejas. Infelizmente, é cada vez mais raro ouvir um líder religioso fazendo uma afirmação como essa. É preciso coragem, desapego e, acima de tudo, ser um crente genuíno, pois uma declaração dessas pode impactar as doações que todo ministério precisa para se manter.

​Alguns poderiam pensar imediatamente: “Ora, se isso não é suficiente para ir para o céu, vou começar cortando a ajuda à igreja”. É assim que as pessoas com uma fé superficial pensam, buscando em tudo uma vantagem para fazer o mínimo possível.

​E, com a devida vênia, permito-me complementar o pensamento do ilustre pastor:

Ninguém vai para o céu por ajudar os pobres.

Ninguém vai para o céu por dar comida ao faminto.

Ninguém vai para o céu porque ajuda o necessitado.

​E sabe qual é o motivo? É simples: se as boas obras fossem a causa da salvação, bastaria praticá-las e tudo estaria resolvido. Mas isso representaria uma inversão total de valores. Ajudar os pobres não é a causa da salvação, mas a consequência dela. É isso que milhares de pessoas não compreendem. Eu não ajudo os pobres para ser salvo; eu os ajudo porque fui salvo pela graça, e a Igreja, como corpo de Cristo, também o faz.

​Quem me move à compaixão é Jesus Cristo. Sou generoso porque desejo agradecer a Deus por essa salvação gratuita. A salvação é um dom concedido por meio de Cristo; ela não pode ser merecida por nenhum mortal. Teremos acesso a ela por pura e exclusiva misericórdia do Senhor. Faça o que você fizer, nunca será suficiente para bater à porta do Altíssimo e reivindicar seu lugar no céu.

​O seu nome só estará no Livro da Vida por completa e total misericórdia. O apóstolo Paulo, em sua carta aos Filipenses, nos deixou uma bela frase que se enquadra perfeitamente nesta situação: “Porque para mim o viver é Cristo, e o morrer é lucro” (Filipenses 1:21). Paulo nos diz que, como detentor da graça de Jesus, ele podia até mesmo encarar a morte com serenidade, pois se encontraria com o Salvador no paraíso, e nada, absolutamente nada, poderia mudar esse desfecho.

Essa verdade está no cerne da fé cristã e é magnificamente resumida em outra passagem de Paulo, na carta aos Efésios: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie” (Efésios 2:8-9). Esse princípio, conhecido como Sola Gratia (Somente a Graça), estabelece que a iniciativa da salvação é inteiramente divina. Nossas obras, por mais nobres que sejam, são insuficientes para pagar a dívida do pecado. A salvação não é um troféu que conquistamos, mas um presente que recebemos de mãos vazias, com um coração arrependido e grato.

Compreender isso transforma radicalmente a motivação por trás de nossas ações. A caridade deixa de ser uma moeda de troca com Deus e passa a ser uma expressão espontânea de um coração transformado. Não agimos para sermos amados por Deus, mas porque já somos amados por Ele. É o que a Bíblia chama de “fruto do Espírito” (Gálatas 5:22-23): amor, alegria, paz, bondade e mansidão que brotam naturalmente de uma vida conectada com Cristo. A ajuda ao próximo se torna, então, um reflexo do amor divino que habita em nós, e não uma tentativa de construir uma escada de méritos próprios até o céu.

Dessa forma, a Igreja se manifesta no mundo não como uma organização que busca acumular créditos espirituais, mas como um testemunho vivo do poder da graça. Quando a comunidade de fé serve aos necessitados, promove a justiça e ampara os aflitos, ela está materializando o Reino de Deus na Terra. As boas obras da Igreja não são um meio de barganhar com o Criador, mas sim a celebração de uma salvação já garantida. É a gratidão em ação, tornando a mensagem do Evangelho visível e tangível para uma sociedade que precisa desesperadamente de esperança e amor incondicional.

​Dito isso, ajude a quem precisa, doe de coração puro e nunca espere nada em troca. Deus não negocia, não relativiza, não admite chantagem, não faz trocas, nem se envolve em qualquer tipo de negócio escuso. O nobre e diligente pastor, de quem sou seguidor e admirador, disse o que era necessário ser dito, mesmo que a frase pudesse prejudicá-lo — o que certamente não acontecerá, pois a Igreja é do Senhor, e Ele cuidará dela até o fim dos tempos.

​Termino, como de costume, com uma frase, e hoje escolhi uma do próprio Pastor Hernandes Dias Lopes: “A Igreja aceita todos, mas não aceita tudo. Venha como está, mas não permaneça como veio.”

Júnior Belchior

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