O primeiro milagre. Quando João registra que o primeiro sinal de Jesus aconteceu num casamento em Caná da Galileia, ele não está simplesmente narrando um episódio curioso da biografia do Nazareno. João escreve com a precisão de quem conhece o Antigo Testamento de trás para frente, e cada detalhe que ele escolhe preservar carrega peso teológico. O vinho que faltou, a festa que quase fracassou, a hora que ainda não havia chegado e, no entanto, chegou. Nada disso é ornamento literário. É teologia narrativa.
Para entender o que João quis dizer, é preciso ir muito antes de Caná. É preciso ir até o Sinai.
Quando Deus conduz Israel pelo deserto e firma a aliança no monte, ele não está apenas entregando um código de leis. A estrutura da aliança mosaica segue o padrão dos tratados de suserania do Antigo Oriente Próximo: um grande rei se vincula a um povo vassalo, estabelece as condições do relacionamento e lacra o acordo com sangue. “Então Moisés tomou o sangue, e o aspergiu sobre o povo, e disse: Eis aqui o sangue da aliança que o Senhor fez convosco acerca de todas estas palavras” (Êxodo 24.8). O sangue derramado não era um rito primitivo sem significado. Era a assinatura do contrato. Era a linguagem que aquela cultura conhecia para dizer: isso é irrevogável.
E qual era a natureza desse contrato? Os profetas não tiveram dúvida em chamá-lo pelo nome que ele merecia. Oséias, no século oitavo antes de Cristo, recebe de Deus uma incumbência que beira o escândalo: casar-se com uma mulher que o abandonaria por outros homens. “Vai, toma uma mulher de prostituições” (Oséias 1.2). Nenhum profeta recebeu uma missão mais humilhante do ponto de vista humano. Mas era exatamente esse o ponto. A infidelidade de Gômer com seus amantes era o retrato fiel do que Israel havia feito com o seu Deus desde o momento em que Moisés desceu do monte e encontrou o povo adorando um bezerro de ouro. A aliança do Sinai era um casamento. E Israel havia cometido adultério espiritual repetido, sistemático, documentado em cada página dos livros históricos.
O que torna Oséias teologicamente explosivo não é o casamento com a prostituta. É o que Deus promete no final. Depois de anunciar o julgamento, Deus fala sobre uma restauração que vai além de simplesmente perdoar. “E desposar-te-ei para sempre; desposar-te-ei em justiça, e em juízo, e em benignidade, e em misericórdia. E desposar-te-ei em fidelidade, e conhecerás ao Senhor” (Oséias 2.19-20). Não é recomeço. É uma aliança nova, feita com um noivo que não desistiu da noiva, mesmo depois de tudo que ela fez.
É com esse pano de fundo que João 2 se torna legível em sua profundidade.
Jesus aparece num casamento. Ele é chamado como convidado, mas a narrativa logo deixa claro que ele é mais do que isso. Quando o vinho acaba, é a ele que Maria recorre. E a resposta de Jesus para a mãe tem uma densidade que as traduções nem sempre capturam com justiça: “Que tenho eu contigo, mulher? “Ainda não é chegada a minha hora” (João 2.4). Aquela hora, que permeia todo o evangelho de João, aponta para a cruz. Para o sangue. Para o momento em que a aliança nova seria lacrada da mesma forma que a antiga havia sido, mas desta vez de uma maneira que nenhum Sinai poderia oferecer. Jesus sabia que aquele casamento em Caná era apenas o primeiro sinal de algo que só se completaria no Calvário.
A transformação da água em vinho, então, não é um milagre de conveniência para salvar a festa de um constrangimento social. É uma declaração tipológica. O vinho nos textos do Antigo Testamento aparece repetidamente associado à alegria da aliança restaurada. Isaías descreve a era messiânica com a imagem de vinhos envelhecidos servidos a todos os povos (Isaías 25.6). Amós profetiza que os montes destilarão vinho novo quando Deus restaurar Israel (Amós 9.13). Quando Jesus produz vinho em Caná, e não qualquer vinho, mas o melhor, guardado para o fim da festa, ele está sinalizando que o momento da restauração chegou. O noivo voltou para a noiva infiel.
E o sinal se completa na Última Ceia. Ali, Jesus pega a taça e diz o que João 2 já havia antecipado de longe: “Este cálice é a nova aliança no meu sangue, que é derramado por vós” (Lucas 22.20). O mesmo vinho. O mesmo sangue da aliança. A assinatura que Moisés havia feito com sangue de animais aspergido sobre o povo agora é feita com o próprio sangue do Filho de Deus. O que estava quebrado desde o Sinai, o que Oséias havia chorado por meio da traição de Gômer, o que os profetas haviam prometido que seria restaurado, Jesus lacra numa mesa de jantar com pão e vinho.
Há uma dimensão que os leitores ocidentais modernos frequentemente perdem porque não vivem dentro da estrutura mental de aliança que o mundo bíblico respirava. Para um judeu do primeiro século, um casamento não era apenas uma celebração afetiva entre duas pessoas. Era uma transferência de aliança, com obrigações, com sangue, com festa e com promessa de fidelidade perpétua. Quando Jesus escolhe um casamento para inaugurar os seus sinais, ele não está simplesmente aproveitando uma oportunidade. Ele está estabelecendo o vocabulário com o qual o restante do seu ministério será lido. Ele é o Noivo. A comunidade dos seus seguidores é a noiva. E a aliança que ele veio selar não será rompida pelo adultério deles, porque desta vez o sangue que a lacra é o do próprio Deus encarnado.
João sabia exatamente o que estava fazendo quando colocou esse episódio no início do seu evangelho. Não foi o primeiro cronologicamente, mas foi o primeiro sinal. E sinais, em João, nunca são apenas provas de poder. São janelas abertas para a identidade de Jesus e para o propósito da sua vinda. O vinho de Caná era uma dessas janelas. Quem olhasse com os olhos certos, conhecendo Oséias e o Sinai e a promessa dos profetas, via ali não um mágico transformando água, mas o Noivo que voltou para a noiva que o havia abandonado, trazendo o melhor vinho guardado para o fim.
Dietrich Bonhoeffer: “A graça não é barata porque não custa nada. É, cara, porque custou a vida de Deus.”
Carlos Belchior Júnior
João Pessoa, Paraíba.
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