07/10/2026

SORTE OU AZAR? O QUE EXISTE É DEUS.

SORTE OU AZAR

SORTE OU AZAR? O QUE EXISTE É DEUS.

A providência divina em um mundo que insiste em acreditar no acaso

A sorte costuma receber os aplausos pelas nossas conquistas, enquanto o azar leva a culpa pelas nossas tragédias. Quando alguém escapa de um acidente, dizemos que teve sorte. Quando perdemos uma oportunidade, afirmamos que foi azar. Quando uma situação improvável termina favoravelmente, chamamos de coincidência. Criamos, assim, uma maneira aparentemente inocente de explicar os acontecimentos, mas raramente percebemos o problema teológico escondido nessa linguagem: atribuímos a forças impessoais aquilo que, segundo as Escrituras, permanece debaixo da soberania de Deus. O cristianismo não apresenta um universo administrado pela sorte nos dias bons e pelo azar nos dias ruins. Apresenta um Deus que governa a criação, sustenta a existência e conduz a história sem depender de circunstâncias que escapem ao seu conhecimento. O que chamamos de acaso pode revelar os limites da nossa compreensão, mas jamais os limites do governo divino.

Essa afirmação precisa ser compreendida com cuidado, porque defender a soberania de Deus não significa negar a existência de acontecimentos imprevisíveis, desprezar as leis da natureza ou imaginar que conhecemos as razões divinas para tudo o que acontece. Uma coisa é reconhecer que existem eventos cujo resultado não conseguimos antecipar; outra, completamente diferente, é concluir que esses acontecimentos estão fora do conhecimento e da providência do Criador. A aleatoriedade, no sentido científico ou matemático, não precisa ser negada pela fé cristã. Podemos calcular probabilidades, reconhecer situações fortuitas e admitir que nossas decisões são afetadas por inúmeros fatores desconhecidos. O problema começa quando transformamos essas limitações humanas em uma explicação definitiva da realidade, como se a ausência de previsibilidade significasse ausência de governo. Aquilo que não conseguimos prever não se torna, por esse motivo, independente de Deus.

Provérbios 16:33 oferece uma das declarações mais expressivas das Escrituras sobre essa questão. O texto afirma que a sorte é lançada no colo, mas toda decisão procede do Senhor. No mundo antigo, o lançamento de sortes era conhecido como um procedimento utilizado em determinadas circunstâncias para estabelecer escolhas ou resolver questões. O resultado podia parecer inteiramente casual para quem participava do processo, mas o autor bíblico afirma que nem mesmo essa aparente imprevisibilidade está fora da soberania divina. Isso não significa que lançar dados, participar de jogos ou recorrer a procedimentos aleatórios seja uma maneira legítima de descobrir a vontade particular de Deus. O provérbio não oferece uma técnica de adivinhação, tampouco legitima a superstição. Sua finalidade é estabelecer uma convicção teológica: mesmo quando o ser humano desconhece o resultado de um acontecimento, Deus não está sujeito à mesma ignorância.

Essa compreensão encontra uma expressão ainda mais profunda nas palavras de Jesus registradas em Mateus 10:29 a 31. Ao ensinar seus discípulos sobre o cuidado do Pai, Cristo utiliza o exemplo dos pardais, aves de pequeno valor comercial, e afirma que nenhum deles cai à terra à parte do Pai. Em seguida, declara que até os cabelos da nossa cabeça estão contados. A referência aos pardais é particularmente significativa porque Jesus não recorre a acontecimentos extraordinários para demonstrar a extensão da providência divina. Ele escolhe algo comum, aparentemente insignificante, distante das preocupações que costumamos considerar importantes. Se o cuidado de Deus alcança criaturas tão pequenas, não há razão bíblica para imaginar que os acontecimentos da existência humana estejam entregues a forças autônomas. O argumento de Cristo, entretanto, não é que seus discípulos jamais sofreriam. O próprio contexto fala de perseguição e morte. Sua intenção é mostrar que, mesmo diante dessas possibilidades, eles permanecem sob o conhecimento e o cuidado do Pai.

O livro de Rute apresenta uma narrativa especialmente interessante para compreender como a providência pode atuar em circunstâncias que, aos olhos humanos, parecem inteiramente casuais. Rute era uma mulher moabita que havia perdido o marido e acompanhado sua sogra, Noemi, no retorno a Belém. Sem recursos suficientes para sua manutenção, saiu para recolher espigas deixadas nos campos durante a colheita, uma prática amparada pela legislação israelita em favor dos pobres e estrangeiros, conforme Levítico 19:9 e 10 e Deuteronômio 24:19. Ao narrar sua chegada ao campo de Boaz, Rute 2:3 utiliza uma expressão que transmite justamente a ideia de casualidade. A jovem entrou em uma propriedade sem conhecer a importância daquele lugar para os acontecimentos que se seguiriam. Não recebeu uma revelação antecipada, não conhecia o futuro e não possuía qualquer garantia de que sua decisão produziria algo além do alimento necessário para aquele dia.

Entretanto, o desenvolvimento da narrativa revela que aquele encontro teria consequências muito maiores do que Rute poderia imaginar. Boaz se tornaria seu marido, e dessa união nasceria Obede, pai de Jessé e avô do rei Davi. Posteriormente, Mateus 1:5 incluiria Rute e Boaz na genealogia de Jesus Cristo. A mulher estrangeira que procurava alimento passou a integrar a linhagem humana do Messias. Seria um exagero afirmar que o autor de Rute pretendia explicar cada decisão particular da personagem como resultado de uma intervenção sobrenatural extraordinária. O relato, porém, permite reconhecer a providência divina atuando por meio de circunstâncias ordinárias, decisões responsáveis e relacionamentos humanos. Rute precisou sair de casa, trabalhar e enfrentar sua vulnerabilidade. Boaz agiu com generosidade e cumpriu suas responsabilidades. Deus não anulou essas ações humanas, mas a narrativa as apresenta dentro de uma história de redenção muito maior do que seus participantes conseguiam enxergar.

É importante enfrentar, contudo, uma passagem que aparentemente poderia contrariar essa interpretação. Eclesiastes 9:11 afirma que nem sempre os mais velozes vencem a corrida, os mais fortes ganham a batalha ou os sábios alcançam prosperidade, porque o tempo e o acaso sobrevêm a todos. Seria intelectualmente desonesto defender que a Bíblia jamais utiliza o conceito de acaso quando o próprio texto sagrado emprega essa linguagem. A questão é compreender o sentido da afirmação. Eclesiastes examina repetidamente as limitações da existência humana, demonstrando que esforço, inteligência, habilidade e planejamento não asseguram os resultados desejados. Pessoas competentes podem fracassar, indivíduos prudentes podem sofrer perdas e acontecimentos inesperados podem modificar completamente uma vida. O autor não está necessariamente atribuindo esses resultados a uma força independente de Deus, mas descrevendo uma experiência que todos conhecemos: vivemos em um mundo no qual não conseguimos controlar todas as variáveis que interferem em nosso futuro.

Não existe contradição necessária entre Eclesiastes 9:11 e Provérbios 16:33. O primeiro descreve a imprevisibilidade da existência a partir das limitações humanas, enquanto o segundo afirma a soberania divina sobre resultados que escapam ao nosso controle. O que parece casual para nós não precisa ser casual para Deus. Essa distinção impede dois erros frequentes: negar a realidade das contingências da vida e imaginar que toda situação inesperada representa uma suspensão da providência. A fé cristã não exige que o ser humano possua uma explicação para cada acontecimento, nem transforma o desconhecimento das causas em evidência de alguma intervenção extraordinária. A providência divina pode operar por meio das próprias causas naturais e das decisões humanas, sem que precisemos recorrer constantemente a milagres para reconhecer a ação sustentadora de Deus.

A história de José, registrada entre os capítulos 37 e 50 de Gênesis, aprofunda essa discussão porque envolve acontecimentos que dificilmente seriam descritos como favoráveis. José foi odiado por seus irmãos, vendido como escravo, levado ao Egito e posteriormente preso após uma acusação injusta. Se interpretássemos sua trajetória exclusivamente pela linguagem popular, talvez disséssemos que ele foi perseguido pelo azar. Entretanto, essa expressão seria insuficiente e até inadequada para descrever aquilo que o texto realmente apresenta. José não foi vítima de uma entidade misteriosa chamada azar, mas da inveja, da violência e da injustiça praticadas por pessoas responsáveis por suas escolhas. Seus irmãos deliberadamente decidiram prejudicá-lo, e as consequências dessa decisão produziram sofrimento real. A soberania divina não diminui a gravidade do pecado cometido contra ele, nem torna moralmente aceitável aquilo que aconteceu.

A interpretação decisiva aparece em Gênesis 50:20, quando José declara aos irmãos que eles haviam planejado o mal contra ele, mas Deus o encaminhara para o bem, a fim de preservar muitas vidas. Essa passagem apresenta uma das formulações mais profundas da relação entre a providência divina e a responsabilidade humana. Os irmãos de José agiram com intenções perversas, enquanto Deus conduziu a história para um resultado diferente daquele pretendido pelos agressores. O mesmo acontecimento aparece relacionado a intenções moralmente distintas, sem que a maldade humana seja atribuída ao caráter de Deus. Isso não significa que a providência transforma o pecado em virtude, mas que o pecado não possui poder suficiente para frustrar os propósitos divinos. José não precisava negar a injustiça sofrida para reconhecer a fidelidade de Deus. Pelo contrário, somente porque identificou corretamente a maldade dos irmãos pôde demonstrar a grandeza da providência que prevaleceu sobre ela.

Essa distinção é indispensável para evitar uma caricatura perigosa da soberania divina. Deus não pode ser apresentado como autor moral do pecado, nem podemos utilizar sua providência para absolver aqueles que praticam a injustiça. Tiago 1:13 afirma que Deus não tenta ninguém para o mal, e a santidade divina precisa permanecer como fundamento de qualquer explicação teológica. A tradição reformada, ao desenvolver a doutrina da providência, procurou preservar justamente essa relação entre o governo soberano de Deus e a responsabilidade das criaturas. A Confissão de Fé de Westminster, no capítulo V, afirma que a providência divina se estende a todas as coisas, inclusive aos acontecimentos que envolvem ações pecaminosas, mas ressalta que a pecaminosidade dessas ações procede das criaturas, e não de Deus. Essa formulação não elimina todas as dificuldades filosóficas envolvidas na questão, mas estabelece limites importantes para que a soberania não seja confundida com fatalismo moral.

Talvez a maior dificuldade apareça quando deixamos de falar sobre conquistas e oportunidades e passamos a considerar tragédias humanas. É relativamente simples reconhecer a providência quando alguém consegue um emprego, supera uma dificuldade ou recebe uma notícia favorável. A situação se torna muito mais delicada diante da morte de uma criança, de uma doença grave, de uma catástrofe natural ou da violência contra uma pessoa inocente. Nesses momentos, explicações religiosas apressadas podem produzir ainda mais sofrimento. Não temos autorização bíblica para assegurar a uma família enlutada que conhecemos a razão específica de sua perda, tampouco para declarar que determinada tragédia ocorreu porque Deus desejava ensinar uma lição particular às vítimas. Afirmar a soberania divina é diferente de pretender conhecer todos os seus desígnios. A primeira atitude expressa uma convicção teológica; a segunda frequentemente revela uma presunção que as próprias Escrituras nos ensinam a evitar.

Jesus enfrentou diretamente essa tendência em Lucas 13:1 a 5, quando mencionou dois acontecimentos trágicos. O primeiro envolvia galileus mortos por ordem de Pilatos; o segundo, dezoito pessoas que morreram quando uma torre caiu em Siloé. Em ambos os casos, Cristo rejeitou a conclusão de que aquelas vítimas fossem mais culpadas do que as demais pessoas. Seu ensino não oferece uma explicação detalhada das causas de cada tragédia, mas impede a associação automática entre sofrimento e culpa individual. Algo semelhante aparece em João 9:1 a 3, quando os discípulos perguntam se a cegueira de um homem desde o nascimento havia sido provocada por seu próprio pecado ou pelo pecado de seus pais. Jesus rejeita essa alternativa. Portanto, ninguém possui autoridade para interpretar o sofrimento alheio como evidência suficiente de castigo divino, falta de fé ou algum tipo de maldição particular. O sofrimento existe em um mundo marcado pelo pecado, mas suas manifestações concretas não podem ser reduzidas a julgamentos simplistas sobre aqueles que sofrem.

O livro de Jó reforça essa advertência. O personagem é apresentado como um homem íntegro, temente a Deus e afastado do mal, mas experimenta perdas devastadoras que atingem sua família, seus bens e sua saúde. Seus amigos insistem em interpretar o sofrimento como consequência de alguma transgressão que ele precisaria reconhecer. Embora utilizem argumentos religiosos aparentemente coerentes, suas conclusões não correspondem à realidade apresentada pela narrativa. Jó desconhecia as circunstâncias descritas nos capítulos iniciais e precisava lidar com uma dor para a qual não possuía explicações satisfatórias. O livro não termina oferecendo ao leitor uma fórmula capaz de esclarecer cada sofrimento humano. Em vez disso, confronta a pretensão de submeter a sabedoria divina aos limites da razão humana. A fé não exige que chamemos uma tragédia de bênção, mas que reconheçamos a diferença entre aquilo que sabemos sobre o caráter de Deus e aquilo que ignoramos acerca de seus propósitos específicos.

Essa compreensão também precisa impedir que a providência seja utilizada como desculpa para a passividade. Se Deus governa todas as coisas, nossas decisões continuam sendo relevantes, e as Escrituras jamais apresentam a responsabilidade humana como incompatível com a soberania divina. Tiago 4:13 a 15 repreende aqueles que fazem planos como se tivessem domínio absoluto sobre o amanhã, mas não condena a atitude de planejar. A orientação é reconhecer a dependência da vontade de Deus enquanto organizamos nossas atividades. Provérbios 21:31 ensina que o cavalo é preparado para o dia da batalha, embora a vitória pertença ao Senhor. A preparação humana e a confiança divina aparecem lado a lado, sem qualquer necessidade de oposição. O estudante precisa estudar, o trabalhador precisa agir com diligência e aquele que enfrenta uma enfermidade deve buscar os cuidados apropriados. Confiar na providência não significa abandonar os meios ordinários pelos quais Deus preserva a vida e permite que nossas responsabilidades sejam cumpridas.

A discussão também não é uma preocupação exclusiva dos teólogos contemporâneos. Agostinho de Hipona enfrentou questões semelhantes no livro V de sua obra A Cidade de Deus, ao examinar a relação entre a grandeza do Império Romano, o destino e a providência. Em um ambiente cultural profundamente influenciado por concepções de fortuna e astrologia, Agostinho recusou a ideia de que os acontecimentos históricos fossem governados por forças impessoais independentes da vontade divina. Sua argumentação distinguia aquilo que os homens chamavam de casual por desconhecerem suas causas da realidade mais ampla do governo de Deus. Não se tratava de negar que certos acontecimentos parecessem fortuitos, mas de rejeitar que a ignorância humana sobre suas causas pudesse servir como fundamento para excluir a providência. Essa preocupação patrística continua pertinente porque, apesar dos séculos transcorridos, ainda demonstramos grande facilidade em substituir a confiança em Deus por explicações supersticiosas sobre o destino.

Entretanto, nenhuma dessas narrativas alcança a profundidade teológica da crucificação de Jesus Cristo. Naquela ocasião, a injustiça humana manifestou-se de maneira terrível. O Filho de Deus foi traído, acusado falsamente, condenado e executado. Para os discípulos, que ainda não compreendiam plenamente as Escrituras, sua morte representou o colapso das expectativas messiânicas. Contudo, Pedro declarou em Atos 2:23 que Jesus foi entregue conforme o determinado desígnio e a presciência de Deus, embora sua crucificação tenha sido realizada por homens moralmente responsáveis. A mesma verdade reaparece em Atos 4:27 e 28, quando a igreja reconhece que Herodes, Pôncio Pilatos, os gentios e os povos de Israel participaram dos acontecimentos que Deus havia determinado em seu propósito redentor. As Escrituras não apresentam a morte de Cristo como um acidente histórico posteriormente aproveitado por Deus, mas como parte central do plano da redenção.

A cruz demonstra, de maneira incomparável, que a maldade humana não possui a última palavra sobre a história. Isso não diminui a culpa daqueles que cometeram a injustiça, mas evidencia a profundidade do propósito divino, que se cumpriu mesmo por meio da oposição de homens pecadores. A ressurreição de Cristo, por sua vez, revelou que a morte não poderia encerrar aquilo que Deus havia estabelecido. Essa verdade impede que a providência seja reduzida a uma doutrina destinada a explicar conquistas pessoais, oportunidades profissionais ou acontecimentos favoráveis. Seu fundamento cristológico é muito mais profundo. O Deus que governa a história não prometeu uma existência livre de aflições, mas realizou em Cristo a obra definitiva da redenção. Nossa confiança não está em uma suposta imunidade às tragédias, mas naquele que venceu o pecado e a morte e prometeu consumar sua obra quando todas as coisas forem restauradas.

É por isso que Romanos 8:28 precisa ser compreendido à luz do seu contexto. Paulo afirma que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, dos que são chamados segundo seu propósito. A passagem não promete que cada acontecimento produzirá felicidade imediata, prosperidade material ou uma solução que conseguiremos identificar durante esta vida. O próprio capítulo menciona sofrimentos presentes, gemidos da criação, fraquezas, perseguições e morte. No versículo seguinte, o apóstolo relaciona o propósito de Deus à conformidade dos seus filhos com a imagem de Cristo. O bem prometido não pode ser reduzido à realização dos nossos desejos. Trata-se da fidelidade divina em conduzir sua obra redentora até o fim, mesmo quando as circunstâncias presentes parecem incompatíveis com nossas expectativas. A providência, nesse sentido, não é uma garantia de conforto permanente, mas a certeza de que a história dos redimidos não está abandonada ao absurdo.

Também é necessário distinguir a linguagem cotidiana das convicções religiosas que podem estar por trás dela. Quando alguém deseja boa sorte a um amigo antes de uma prova ou de uma entrevista de emprego, não significa necessariamente que esteja professando fé em uma divindade chamada Fortuna. Frequentemente, trata-se apenas de uma expressão convencional de bons desejos. Da mesma maneira, dizer que alguém teve azar pode simplesmente indicar que experimentou uma circunstância desfavorável e inesperada. Não seria sensato transformar essas expressões em motivo permanente de policiamento linguístico, como se a fé de uma pessoa pudesse ser avaliada pela ausência absoluta de determinadas palavras em seu vocabulário. A questão relevante não é apenas o termo utilizado, mas a crença que sustenta nossa interpretação da realidade. Uma coisa é empregar uma expressão popular; outra é depositar confiança em números, objetos, sinais, astros ou rituais como se fossem capazes de controlar o futuro.

A superstição floresce justamente onde o ser humano deseja possuir algum domínio sobre aquilo que não consegue controlar. Por isso, tantas pessoas procuram amuletos para atrair prosperidade, evitam determinados números por medo de tragédias ou atribuem a objetos um poder que eles não possuem. A fé cristã confronta essa mentalidade porque transfere nossa confiança das criaturas para o Criador. Não precisamos recorrer a forças imaginárias para explicar os acontecimentos, embora também não tenhamos o direito de afirmar que conhecemos detalhadamente a vontade secreta de Deus. Deuteronômio 29:29 distingue as coisas encobertas, que pertencem ao Senhor, daquilo que ele revelou ao seu povo. Essa passagem nos convida à humildade diante dos mistérios da providência. Deus revelou suficientemente seu caráter, sua justiça, sua misericórdia e seu propósito redentor, mas não entregou aos seres humanos uma explicação antecipada de todos os acontecimentos particulares da história.

Talvez alguém esteja lendo estas palavras enquanto enfrenta uma situação para a qual ainda não encontrou respostas. Pode ser uma perda familiar, uma enfermidade, uma decepção ou uma sucessão de acontecimentos que parecem contrariar todos os seus planos. Seria irresponsável assegurar que compreendemos as razões pelas quais essas coisas aconteceram ou prometer que tudo se resolverá exatamente como desejamos. As Escrituras não nos oferecem essa autoridade. Elas nos oferecem algo mais sólido: o conhecimento do Deus que se revelou em Jesus Cristo, cuja fidelidade não depende da nossa capacidade de compreender os acontecimentos. A providência divina não elimina a necessidade de lamentar, nem torna ilegítimas as perguntas de quem sofre. Os salmos estão repletos de orações nas quais homens piedosos expressam perplexidade, tristeza e profunda angústia diante de Deus. A confiança bíblica não exige uma aparência constante de tranquilidade, mas permite que até nossas dúvidas sejam apresentadas àquele que continua digno de confiança.

O cristão não precisa acreditar que o universo conspira a seu favor, como também não deve viver com medo de que forças desconhecidas estejam conspirando contra ele. Sua esperança não depende de uma sequência favorável de acontecimentos, nem desaparece quando aquilo que desejava deixa de acontecer. A soberania de Deus permanece verdadeira tanto nos dias de abundância quanto nos de escassez, tanto diante das portas que se abrem quanto das perdas que não conseguimos compreender. Reconhecer isso não significa interpretar cada circunstância como uma mensagem codificada do céu, mas aprender a viver com responsabilidade, gratidão, prudência e confiança. O futuro continua desconhecido para nós, e essa é uma limitação própria da condição humana. Para o Deus revelado nas Escrituras, entretanto, não existe um amanhã capaz de surpreendê-lo ou um acontecimento que possa frustrar definitivamente seus propósitos.

A diferença entre a superstição e a fé cristã está precisamente no objeto da nossa confiança. A superstição procura meios de controlar o desconhecido, enquanto a fé repousa no caráter de Deus mesmo quando o desconhecido permanece. A primeira transforma circunstâncias em poderes; a segunda reconhece que circunstâncias não são soberanas. Não precisamos chamar nossas conquistas de sorte, nem atribuir nossas perdas a uma entidade chamada azar. Podemos agradecer pelas bênçãos, assumir as consequências das nossas escolhas, combater as injustiças, lamentar o sofrimento e continuar confiando naquele que sustenta a criação. A providência divina não nos autoriza a explicar tudo, mas nos impede de imaginar que Deus tenha abandonado o governo da história.

A sorte não distribui bênçãos, o azar não administra tragédias e o destino não possui autoridade sobre o Criador. Aquilo que desconhecemos continua desconhecido para nós, mas não para Deus. E se existe uma verdade capaz de sustentar a fé cristã em meio às incertezas da vida, é esta: o Senhor não precisa que os acontecimentos sejam favoráveis para continuar sendo soberano, nem depende da nossa compreensão para permanecer fiel. Nossa segurança definitiva não está naquilo que poderá acontecer amanhã, mas no Deus que se revelou em Cristo e prometeu levar sua obra redentora à consumação. Afinal, a história não pertence à sorte, não está submetida ao azar e não terminará nas mãos do acaso. Ela permanece nas mãos de Deus.

Carlos Belchior Júnior, João Pessoa, Paraíba

ROMA CONTRA CRISTO

Clube dos autores – https://bit.ly/4tslZRe
Amazon – https://amzn.to/4tf7dx6
Uiclap – https://bit.ly/41TmLLf

“A RESSURREIÇÃO DE CRISTO”

Clube dos autores: https://clubedeautores.com.br/livro/a-ressurreicao-de-cristo

Uiclap: https://loja.uiclap.com/titulo/ua183448