Apologética

Desvendando a Verdade: Mitos e Realidade na Vida de Jesus Cristo – Júnior Belchior

Vida de Jesus Cristo

Existem diversos mitos sobre a vida de Jesus Cristo, principalmente oriundos de séries e filmes que, infelizmente, nem sempre retratam a verdade dos fatos. Inconsequentemente, essa representação errônea pode levar os fiéis a acreditarem em inverdades que, para serem desfeitas, exigem considerável esforço de esclarecimento.

Hoje, escolhi cinco mitos – dentre dezenas existentes – que considero merecedores da devida reparação histórica e teológica. Como estudante de pós-graduação em Teologia (com foco em Arqueologia, História e Interpretação da Bíblia), sinto-me na obrigação de repor a verdade sobre certos assuntos e eventos que circundam o “homem” mais importante de todos os tempos.

O primeiro mito é o de Jesus Cristo carregando a cruz inteira pelo meio de Jerusalém, como cansam de mostrar filmes e séries. Isso é uma inverdade! Jesus carregou o madeiro por fora da cidade, justamente para evitar um tumulto civil e cumprir a pena em local apropriado (Gólgota). Além disso, o condenado apenas carregava a trave horizontal da cruz, chamada de patibulum. Logo, aquelas cenas de Cristo carregando a cruz inteira são uma grande fantasia, e o pior é que há quem repita o erro, ignorando os fatos.

Outro mito sobre nosso Senhor e Salvador é aquele que mostra uma cruz bonitinha, com medidas perfeitas, lixada, com acabamento refinado, verniz da melhor qualidade, etc. É outra inverdade sem tamanho. A cruz não era perfeita nem bonita, e tampouco tinha tamanhos exatos; era feita, literalmente, de qualquer jeito. Os romanos não estavam preocupados com a estética do instrumento de tortura, mas sim com a eficácia da morte dolorosa e humilhante do condenado.

Mais um mito que teremos que jogar luz é a ideia de que a ordem para executar Jesus partiu diretamente de Pôncio Pilatos, a única pessoa em toda Jerusalém que detinha o ius gladii (poder para executar). O resto fora disso é mentira atrás de mentira, pura imaginação dos produtores cinematográficos que adoram escamotear a verdade para criar drama.

Uma situação que também causa espanto a quem conhece a verdade é ver o local onde Jesus foi julgado parecendo um estádio superlotado, com 50 mil pessoas gritando para escolher entre Jesus ou Barrabás. O local físico do julgamento (o Pretório) tinha capacidade limitada, comportando, no máximo, algumas centenas de pessoas. Jerusalém, naquele período da Páscoa, era a cidade com mais peregrinos no planeta Terra; então, afirmar que foram “os judeus” que escolheram é outra inverdade absurda. No local, havia uma multidão mista de pessoas de todos os cantos e recantos, muitos dos quais gritavam sem sequer saber o motivo, manipulados pelas lideranças judaicas.

Mais um mito que não podemos deixar passar é o modo como eram colocados os pregos da crucificação. Na parte superior, os pregos eram fixados nos punhos e não nas mãos, pois, se assim não fosse, o peso do corpo rasgaria os tecidos e o crucificado cairia. Nos pés, era geralmente usado apenas um prego transversal na região do calcanhar ou tornozelo, e nunca no peito do pé, como as séries geralmente mostram.

Por fim, e não menos importante, a idade dos apóstolos. O que os filmes mostram é uma verdadeira brincadeira com a História e a própria Bíblia. É comum notarmos que os apóstolos aparecem com idades parecidas com a de Jesus Cristo, mas isso é uma inverdade das mais violentas possíveis. A maioria dos apóstolos tinha entre 14 e 20 anos; apenas Pedro era um pouco mais velho por já ser casado, mas dificilmente chegava aos 25 anos. Os filmes querem mostrar apóstolos barbados com 30, 35 anos, sendo Jesus (o Mestre/Professor) com cerca de 30. Isso não era possível na tradição judaica, pois, para ser Mestre/Professor (Rabi), tinha que haver uma certa distância de idade para se exercer tal função. Não é como atualmente, onde o professor pode ser mais novo que o aluno. Os roteiristas, infelizmente, não leram nem estudaram nada a respeito do contexto histórico-cultural.

O papel das mulheres no ministério de Jesus é outro ponto onde o cinema e a arte em geral frequentemente cometem equívocos por subestimarem sua importância histórica. É comum vermos Maria Madalena retratada como uma mera seguidora ou, pior, como uma prostituta arrependida — um mito que não encontra respaldo nos Evangelhos. Na realidade, Maria Madalena e outras mulheres, como Joana e Susana, eram patrocinadoras do ministério de Jesus, utilizando seus recursos financeiros para sustentá-lo e aos discípulos (Lucas 8:1-3). Isso confere a elas uma posição de liderança e participação ativa na missão, que ia muito além da simples audição dos ensinamentos. Elas foram as primeiras testemunhas da ressurreição, sendo as “apóstolas dos apóstolos”, um fato que destaca a posição revolucionária de Jesus em valorizar a mulher em uma sociedade patriarcal.

Outro aspecto frequentemente romantizado é a imagem de Jesus. Filmes costumam representá-lo com traços europeus, pele clara, olhos azuis ou verdes e cabelos longos e lisos. Essa descrição, conhecida como “Jesus Ocidentalizado”, é um anacronismo e uma distorção etnográfica. Jesus era um judeu do primeiro século, nascido na Galileia, e suas características físicas eram, certamente, condizentes com as de um homem daquela região do Oriente Médio. Ele teria a pele e os cabelos escuros, e sua aparência seria comum à de seus contemporâneos. A ausência de uma descrição física detalhada na Bíblia sugere que sua aparência não era o que o distinguia, mas sim sua mensagem e seus atos, desmistificando a idealização estética que a cultura popular insiste em propagar.

Existem muitos outros mitos acerca da vida de Jesus Cristo, mas vou deixar para uma próxima oportunidade, para alimentar a curiosidade de vossas excelências. Caso haja interesse, faremos outra coluna sobre mais cinco mitos sobre a vida daquele que deu a sua vida por todos nós.

Termino sempre com uma frase, e hoje escolhi uma do próprio Jesus Cristo, que se encontra em Mateus 20:26-28: “Entre vocês, porém, será diferente. Quem quiser ser o líder entre vocês, que seja servo, e quem quiser ser o primeiro entre vocês, que se torne escravo. Pois nem mesmo o Filho do Homem veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate por muitos.”

Júnior Belchior

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