João 14: Um amigo meu, kardecista e leitor fiel de Chico Xavier, me perguntou se eu já tinha visto na Bíblia algum indício de vida em outros planetas, e a pergunta veio amparada numa frase que ele considera quase uma prova: “Na casa de meu Pai há muitas moradas”. A frase é de Jesus, está em João 14.2, e há mais de um século ela circula nos meios espíritas como se fosse um mapa do universo escrito por Cristo, com mundos habitados espalhados pelo céu. Eu respeito a sinceridade da pergunta e, justamente por isso, quero responder sem fugir dela, olhando o que o texto diz, o que a história do debate mostra e o que cada tese precisa sustentar para ficar de pé.
Comecemos pela tese espírita, que merece ser apresentada com as palavras de quem a formulou. Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, de 1857, já trata da pluralidade dos mundos habitados, e em O Evangelho Segundo o Espiritismo, de 1864, dedica o capítulo terceiro inteiro ao título “Há muitas moradas na casa de meu Pai”. Ali ele ensina que os mundos se dividem em categorias, de expiação e provas, de regeneração, felizes e celestes, e que o espírito, por meio de sucessivas reencarnações, vai passando de um para outro conforme progride. Chico Xavier, no livro “A Caminho da Luz”, ditado pelo espírito Emmanuel em 1939, amplia o quadro e coloca Jesus como governador espiritual da Terra, ligado a uma comunidade de mundos. Repare que a frase de João 14.2 funciona nesse sistema como um pilar, porque, sem ela, a ideia de que Cristo ensinou uma pluralidade de mundos fica sem apoio nas palavras do próprio Mestre.
Só que o debate sobre outros mundos é bem mais antigo e mais amplo do que o Espiritismo. Epicuro, antes de Cristo, defendia mundos inumeráveis formados pelo acaso dos átomos, e Aristóteles sustentava o oposto, um único cosmos ordenado em torno da Terra. Tomás de Aquino, na Suma Teológica, seguiu o caminho aristotélico e argumentou que a unidade da ordem divina pede um só mundo. No século quinze, o cardeal Nicolau de Cusa chegou a especular que os astros poderiam ter habitantes, e em 1600 Giordano Bruno foi queimado em Roma, num processo em que pesaram muitas acusações teológicas e não apenas a defesa de mundos infinitos. Christiaan Huygens, físico e cristão, escreveu o Cosmotheoros imaginando seres em outros planetas, e, no século dezenove, Camille Flammarion popularizou a pluralidade dos mundos com enorme sucesso, num clima que o próprio Kardec soube aproveitar. Thomas Paine, em “A Era da Razão”, usou a ideia contra o cristianismo, argumentando que um Deus que cuida de bilhões de mundos não teria motivo para enviar seu Filho a um só. E no século vinte C. S. Lewis, cristão convicto, escreveu ficção sobre vida em outros planetas e, em ensaios, reconheceu que a descoberta de seres racionais fora da Terra não derrubaria a fé, embora exigisse boas perguntas teológicas.
Do lado científico, o quadro é de uma incerteza honesta. Os telescópios já confirmaram milhares de planetas fora do sistema solar, e isso entusiasma quem aposta em vida espalhada pelo cosmos. Mas até hoje nenhum sinal de vida foi encontrado; a busca por mensagens de rádio segue em silêncio desde os anos sessenta, e autores como Peter Ward e Donald Brownlee, em Rare Earth, e Guillermo Gonzalez e Jay Richards, em The Privileged Planet, argumentam que a combinação de condições que permitiu a vida complexa aqui é muito mais rara do que se supunha. Nada disso prova que estamos sozinhos, e quem afirmar isso com certeza absoluta está indo além do que a ciência entrega. Do mesmo modo, quem afirma com certeza que o universo está cheio de gente está acreditando, e não observando.
Voltemos então ao texto de João, porque é nele que a tese espírita precisa se sustentar. O contexto do capítulo catorze é a última ceia, na noite em que Jesus anuncia que vai partir e vê os discípulos aflitos. Ele abre o capítulo dizendo: “Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, credes também em mim”, e logo em seguida vem: “Na casa de meu Pai há muitas moradas; se assim não fosse, eu vo-lo teria dito, porque vou preparar-vos lugar”. A palavra grega traduzida por moradas é monai, que vem do verbo menō, permanecer, ficar, e o próprio evangelho de João usa esse verbo dezenas de vezes para falar de permanência na comunhão com Deus. A casa do Pai, por sua vez, já havia aparecido em João 2.16, quando Jesus expulsa os vendilhões e chama o templo de “casa de meu Pai”. Ou seja, o vocabulário do próprio autor aponta para a presença de Deus, para o lugar de comunhão com o Pai, e não para a astronomia. Mas ainda mais, o verso seguinte dá o propósito da frase com todas as letras: “E, quando eu for e vos preparar lugar, virei outra vez e vos levarei para mim mesmo, para que, onde eu estou, estejais vós também”. A promessa é pessoal, dirigida àqueles homens assustados, e fala da volta de Cristo e do encontro com ele, sem uma palavra sobre planetas ou sobre etapas de evolução espiritual.
Há ainda outro texto que costuma ser puxado para esse debate, João 10.16, em que Jesus diz: “Tenho ainda outras ovelhas que não são deste aprisco; também me convém agregar estas, e elas ouvirão a minha voz”. Quem lê com pressa imagina habitantes de outros mundos, mas o contexto é o de um pastor falando a judeus sobre um rebanho que passará a incluir os gentios, e o versículo termina falando em “um rebanho e um pastor”, que é exatamente o tema da unidade entre judeus e não judeus que Paulo desenvolverá em Efésios. Colocar extraterrestres aí exige que o texto diga o que o texto não diz.
O que a Bíblia afirma sobre o cosmos, por outro lado, é bastante claro quanto ao lugar do ser humano. Salmo 8 pergunta com assombro: “Quando vejo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que preparaste, que é o homem mortal para que te lembres dele?”, e responde que Deus o coroou de glória. Isaías 45.18 diz que Deus formou a terra “para ser habitada”, e o Salmo 115.16 afirma que “os céus são os céus do Senhor, mas a terra deu-a a ele aos filhos dos homens”. Colossenses 1.16 declara que todas as coisas, visíveis e invisíveis, foram criadas por Cristo e para ele, e Efésios 1.10 fala do propósito de reunir em Cristo “todas as coisas, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra”. Isso mostra um universo vasto e inteiro nas mãos de Cristo, e mostra também que o drama da queda e da redenção está centrado aqui, em Adão e em seus descendentes, para quem o Filho se fez carne. Romanos 8.19 a 22 descreve a criação inteira gemendo à espera da manifestação dos filhos de Deus, e esse gemido está ligado ao pecado humano, o que dá à Terra uma posição que nenhum outro corpo celeste recebe na narrativa bíblica.
É nesse ponto que a tese espírita encontra sua dificuldade mais séria, que não está na existência ou não de outros mundos, mas no sistema que se constrói sobre eles. A reencarnação, que faz o espírito peregrinar por planetas cada vez melhores, entra em choque direto com Hebreus 9.27, que diz: “E, como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo depois disso o juízo”. O versículo seguinte completa o raciocínio, dizendo que “assim também Cristo, oferecendo-se uma só vez para tirar os pecados de muitos”, aparecerá segunda vez sem pecado para salvar os que o esperam. Aqui a obra de Cristo é única e suficiente, concluída na cruz, e não um degrau numa escada de aperfeiçoamento em que cada alma paga o que deve ao longo de existências sucessivas. Paulo, em Efésios 2.8, ensina que “pela graça sois salvos, por meio da fé; e isso não vem de vós, é dom de Deus”, o que torna dispensável qualquer progresso por mérito acumulado entre mundos.
Também vale lembrar o que a Escritura nos diz sobre os limites do conhecimento humano. Deuteronômio 29.29 afirma que “as coisas encobertas pertencem ao Senhor, nosso Deus, mas as reveladas nos pertencem a nós e a nossos filhos”, e é nessa faixa que o cristão evangélico se posiciona sobre vida extraterrestre, com franqueza, dizendo que a Bíblia não afirma nem nega a existência de seres em outros planetas e que, se um dia forem encontrados, a fé em Cristo continuará de pé porque seu fundamento está na encarnação, na morte e na ressurreição de um Deus que se fez homem neste mundo, e não na solidão cósmica da humanidade. O que a leitura cuidadosa de João 14.2 não permite é usá-lo como prova de uma pluralidade de mundos habitados, porque o texto fala de lugar na presença do Pai, preparado por Cristo para os que creem, e quem lê o capítulo inteiro percebe que a pergunta de Tomé logo adiante, “Senhor, não sabemos para onde vais; como saberemos o caminho?”, recebe a resposta que resolve tudo: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim”.
C. S. Lewis: “Creio no cristianismo como creio que o sol nasceu, não apenas porque o vejo, mas porque, por ele, vejo tudo o mais.” (Is Theology Poetry?)
Carlos Belchior Júnior, João Pessoa, Paraíba.
Obs.: Este artigo foi escrito a pedido do amigo Alexandre Rodrigues.
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