Apologética

Orelha Não Entendeu – Júnior Belchior

Orelha

Quando aqueles adolescentes se aproximaram naquela noite fria de janeiro, ele fez o que sempre fez: abanou o rabo. Dez anos vivendo na Praia Brava lhe ensinaram que humanos traziam carinho, comida, afeto. Ele não tinha como saber que o mal também caminha sobre duas pernas e usa roupas de grife.

Orelha não entendeu porque só sabia dar amor. Era isso que ele fazia todos os dias. Acordava, esticava as patas, e saía em busca de quem precisasse de companhia. Consolava o comerciante que teve um dia ruim. Fazia festa pro morador que voltava cansado do trabalho. Brincava com as crianças que passavam. Amor era sua única linguagem.

Orelha não entendeu porque só sabia perdoar. Quantas vezes alguém passou reto sem dar atenção? Quantas vezes foi enxotado de algum lugar? Ele voltava no dia seguinte, rabo abanando, sem guardar mágoa. Perdão era seu modo de vida. Rancor não cabia naquele coração peludo.

Orelha não entendeu porque só sabia dar consolo. Quando alguém chorava, ele encostava o focinho. Quando alguém se sentava sozinho na praça, ele deitava ao lado. Sua presença silenciosa curava feridas que palavras não alcançavam. Ele era terapeuta sem diploma, conselheiro sem consultório.

Orelha não entendeu porque nunca teve comportamento diabólico. Não havia maldade nele. Não havia crueldade. Não havia desejo de ferir. Era incapaz disso. Sua natureza era pura, como Deus criou os animais antes da queda contaminar tudo. Ele era o que deveria ser: inocente.

Orelha não entendeu porque nunca fez ninguém sofrer. Em dez anos, causou apenas alegria. Quantas pessoas sorriram ao vê-lo? Quantas crianças tiveram o dia melhorado por causa dele? Quantos solitários se sentiram menos sozinhos? Sua existência era bênção, não maldição.

Mas naquela noite, Orelha recebeu o que nunca havia experimentado.

Recebeu ódio quando só conhecia afeto. Recebeu pancadas quando só esperava carinhos. Recebeu tortura quando só distribuía paz. As pauladas caíam e ele não entendia. Tentou fugir, mas não conseguiu. Gemia de dor, mas eles continuavam.

Sua vida inteira foi amar. Do primeiro ao último dia. E foi exatamente por isso que ele não entendeu. Como explicar a crueldade pra quem só conheceu bondade? Como um ser que viveu pra consolar compreenderia ser objeto de diversão sádica? Como aquele que perdoava tudo entenderia ser imperdoavelmente torturado?

Orelha morreu sem entender.

E eu, diante dessa história, também não entendo. Não entendo como criaturas feitas à imagem de Deus conseguem destruir o que há de mais belo na criação. Não entendo como pais protegem monstros em vez de formar homens. Não entendo como a justiça pode ser tão lenta, tão frouxa, tão conivente com o mal.

Mas uma coisa eu entendo: o sangue de Orelha clama. Clama desde a areia onde ele foi deixado agonizando. Clama por justiça. Clama por mudança. Clama pra que sua morte não seja esquecida quando a próxima notícia bombar nas redes sociais.

Orelha não entendeu, mas nós precisamos entender. Precisamos entender que uma sociedade que tolera isso está doente. Que famílias que encobrem isso estão perdidas. Que jovens que fazem isso estão entregues ao maligno.

E se não fizermos nada, se deixarmos a indignação de hoje virar indiferença amanhã, então seremos nós que não entendemos nada.

Orelha deu amor a vida inteira. Recebeu morte no final.

Que diferença isso faz? Toda. Porque mostra que o reino de Deus ainda não chegou plenamente. Que a criação ainda geme. Que a justiça precisa ser estabelecida.

E até que isso aconteça, o nome de Orelha não será esquecido. Não por mim. Não por quem tem consciência. Não por quem ainda consegue se revoltar com o mal e clamar pelo bem.

Orelha não entendeu.

Mas Deus entende. E Deus é justo. E ninguém escapa da justiça divina, mesmo que escape da humana.

Júnior Belchior

Obtenha mais de Junior Belchior no app Substack.
Disponível para iOS e Android

Leia também

O Propósito Divino Diante da Calamidade: Por Que Deus Permite a Dor? A Jornada da Escrita: Entre a Crítica e a Inspiração – Júnior Belchior Mensagem de um Coração Saudoso: Para o Pai que Vive na Eternidade – Júnior Belchior

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *