Ontem, 31 de outubro de 2026, fez 509 anos que um monge agostiniano de 33 anos pregou na porta da igreja do castelo de Wittenberg um convite para debate que acabaria rachando a cristandade ocidental. O que quase ninguém lembra é que ele não começou questionando a estrutura eclesiástica por vaidade intelectual, mas porque viu gente pobre entregando as últimas moedas em troca de uma promessa que a Bíblia nunca fez.
O comércio de indulgências, naquele início do século XVI, tinha um endereço financeiro bem definido. Albrecht de Brandemburgo, jovem demais para o cargo, acumulava os arcebispados de Mogúncia e Magdeburgo, além da administração de Halberstadt, e, para pagar a Roma a taxa dessa acumulação, tomou emprestado dos banqueiros Fugger. A quitação da dívida veio de um acordo com o papado: metade da arrecadação das indulgências pregadas em seu território iria para a construção da basílica de São Pedro, a outra metade para os cofres do arcebispo. O dominicano João Tetzel percorria as cidades alemãs com um bordão que corria de boca em boca, dizendo que a alma saía do purgatório assim que a moeda tilintava na caixa. Foi diante disso que Lutero escreveu, na tese 86, uma pergunta que ainda hoje incomoda: por que o papa, cuja fortuna era maior que a do mais rico dos ricos, edificava a basílica com o dinheiro dos fiéis pobres e não com o próprio?
Nada disso nasceu de um temperamento revoltado. Lutero era um homem atormentado pela questão de como um pecador se apresenta diante de um Deus santo, e foi justamente a leitura de Romanos que lhe deu a resposta que o libertou. Ali Paulo escreve que a justiça de Deus se revela no evangelho de fé em fé, “como está escrito: O justo viverá pela fé” (Romanos 1:17). Quando entendeu que essa justiça é dada e não conquistada, a venda de papéis que prometiam encurtar o sofrimento dos mortos deixou de ser um abuso administrativo e passou a ser uma mentira teológica. A tese 62 diz o essencial: que o verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo evangelho da glória e da graça de Deus, e não o cofre que se enchia a cada indulgência vendida. A corrupção que ele combatia tinha raiz doutrinária, e por isso a resposta que ele deu também foi doutrinária.
Paulo havia escrito aos efésios que “pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus; não vem das obras, para que ninguém se glorie” (Efésios 2:8-9). Agostinho, a quem Lutero leu com avidez em “Do Espírito e da Letra”, já havia insistido séculos antes que a graça não é recompensa de mérito, mas dádiva que precede qualquer mérito. Quem acusa Lutero de ter inventado uma teologia nova precisa explicar por que o bispo de Hipona, no século V, soava tão parecido. O reformador não estava criando um evangelho diferente, estava tirando o pó de um que a Igreja havia soterrado sob camadas de tradição lucrativa.
Mas Lutero foi além da denúncia contra a venda de perdões. Em 1520, no escrito “À nobreza cristã da nação alemã”, ele atacou o acúmulo de benefícios eclesiásticos, as taxas cobradas por Roma, o luxo da corte papal e a ideia de que somente o clero possuía um estado espiritual superior. Ao afirmar o sacerdócio de todos os crentes, apoiado em 1 Pedro 2:9, ele tirava do alto clero o monopólio do acesso a Deus e, com isso, desmontava não só um sistema de poder, mas também um sistema de renda. Em 1524 e 1525, voltou-se contra a usura e a ganância dos comerciantes em “do comércio e da usura”, mostrando que a sua indignação diante do dinheiro explorador não se limitava ao púlpito de Roma. A mesma palavra que julgava o papa julgava o mercador alemão.
A coragem dele ficou exposta em Worms, em 1521, diante do imperador Carlos V e de toda a dieta do Império. Pediram que se retratasse, e ele respondeu que, a menos que o convencessem pelo testemunho das Escrituras ou por razão clara, sua consciência estava cativa à Palavra de Deus e ele não podia nem queria retratar-se. Depois, escondido no castelo de Wartburg, traduziu o Novo Testamento para o alemão em poucas semanas, para que o camponês pudesse conferir com os próprios olhos aquilo que o padre afirmava. Quem lê a Bíblia na própria língua dificilmente aceita comprar o que ela não vende.
Seria desonesto, porém, apresentar o reformador como figura sem mancha. O apologista que quer sustentar uma causa com autoridade precisa admitir que Lutero errou gravemente, e que seus textos contra os camponeses revoltados em 1525 e suas palavras duras contra os judeus nos últimos anos de vida são páginas que a própria tradição luterana reconhece com vergonha. Isso não invalida o que ele recuperou das Escrituras, assim como os pecados de Davi não anulam os salmos. Apenas nos lembra de que a Reforma nunca foi a canonização de um homem, e que o princípio que ele defendia, a autoridade final da Palavra, serve também para julgá-lo.
Em 1517, a corrupção vestia batina e prometia o céu por tabela de preços. Hoje ela tem outras roupas, e há quem trate a graça como produto, a unção como mercadoria e o altar como balcão, o que torna a pergunta da tese 86 menos antiga do que parece.
A minha consciência está cativa à Palavra de Deus.” (Martinho Lutero, Dieta de Worms, 1521)
Carlos Belchior Júnior, João Pessoa, Paraíba.
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