Julgar. Existe um versículo que já foi usado para calar mais pregadores, pais, pastores e apologistas do que qualquer decreto de imperador romano, e quem o cita quase nunca percebe que, no instante em que o declara, já está julgando. Quando alguém me diz “Jesus mandou não julgar ninguém”, está avaliando minha conduta, decidindo que ela é errada e me aplicando uma sentença, tudo no mesmo fôlego em que invoca o Senhor contra o ato de julgar. Um texto que se desfaz na boca de quem o usa merece ser examinado com calma, e o exame começa onde quase ninguém começa: na frase seguinte.
“Não julgueis, para que não sejais julgados. Porque, com o juízo com que julgardes sereis julgados, e com a medida com que tiverdes medido vos hão de medir a vós” (Mateus 7:1-2). A citação costuma parar aqui, e é justamente aqui que ela vira slogan. Jesus, porém, continua falando, e o que vem depois muda por completo a natureza do mandamento. Ele pergunta por que alguém repara no argueiro do olho do irmão e não percebe a trave no próprio olho, chama o interlocutor de hipócrita e conclui com uma ordem que desmonta a leitura popular: “Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho e então verás como hás de tirar o argueiro do olho do teu irmão” (Mateus 7:5). Repare no que o texto prevê. Ele não manda deixar o arguiço lá. Manda tirar a trave para enxergar com clareza e então retirar o argilheiro, o que exige avaliar que existe um cisco, onde está e como removê-lo. O senhor descreve uma cirurgia no olho do irmão, e a única condição é que o cirurgião não esteja cego. Proibir o julgamento e ordenar o julgamento limpo são coisas incompatíveis, e Jesus estava fazendo a segunda.
A palavra grega que aparece ali é krinō, e ela cobre um campo enorme de significados: separar, distinguir, avaliar, decidir, processar, condenar. O contexto é que diz qual desses sentidos está em jogo, e o contexto de Mateus 7 é o do juízo hipócrita, severo, apressado, que exige do outro o que não pratica em casa. Agostinho, ao comentar o Sermão do Monte, percebeu isso com precisão. Para ele, o Senhor nos adverte sobre aquelas ações cuja intenção ignoramos, porque ali só nos cabe interpretar com benignidade, e sobre o que é claramente pecado nunca foi dito que devemos fingir cegueira. João Crisóstomo, nas homilias sobre Mateus, vai pelo mesmo caminho e afirma que Cristo não impede a correção de quem peca, e sim a arrogância de quem corrige carregando os mesmos pecados e sem nenhum amor. A igreja antiga leu o texto assim por séculos, e a leitura contrária, a de que o cristão deve ficar mudo diante de qualquer erro, é uma novidade surpreendentemente recente.
O melhor argumento contra o slogan, no entanto, é o próprio Jesus ao longo dos evangelhos. Poucos versículos depois de dizer “não julgueis”, ele ordena: “Não deis aos cães o que é santo, nem lanceis aos porcos as vossas pérolas” (Mateus 7:6). Ora, ninguém consegue obedecer a essa ordem sem decidir quem são os cães e quem são os porcos. Mais adiante, no mesmo capítulo, ele avisa: “Guardai-vos dos falsos profetas, que vêm até vós vestidos como ovelhas, mas por dentro são lobos devoradores. Pelos seus frutos os conhecereis” (Mateus 7:15-16). Mandar identificar falsos profetas pelos frutos é mandar examinar vidas, doutrinas e resultados e emitir um veredito sobre eles. O mesmo Sermão, que supostamente proibiria o juízo, exige três versículos depois do suposto mandamento, que o discípulo julgue com firmeza o que é lobo e o que é ovelha.
Em João 7:24, o próprio Cristo trata do assunto com todas as letras, e o texto praticamente nunca aparece nos memes: “Não julgueis segundo a aparência, mas julgai segundo a reta justiça.” A primeira metade proíbe o juízo superficial, e a segunda ordena o juízo reto. O Senhor não condena o ato de julgar, condena o julgar mal e ainda deixa claro que existe um julgar correto que ele espera de nós. Em Lucas 12:57, a pergunta fica ainda mais direta: “E por que não julgais de vós mesmos o que é justo?” Quando Simão, o fariseu, responde corretamente sobre os dois devedores da parábola, Jesus o elogia com uma frase que soaria escandalosa aos ouvidos modernos: “Julgaste bem” (Lucas 7:43). Houve um julgamento aprovado pelo Senhor, e isso, por si só, desfaz a tese de que julgar é pecado em si.
Os apóstolos entenderam o ensino do Mestre exatamente nesses termos, e basta ver como agiram. Paulo, escrevendo aos coríntios sobre um membro que vivia em imoralidade que nem os pagãos toleravam, não pede tolerância nem silêncio piedoso. Cobra a igreja por não ter agido: “Pois que tenho eu em julgar também os que estão de fora? Porventura não julgais vós os que estão dentro?” (1 Coríntios 5:12). Logo adiante, no capítulo 6, o apóstolo se admira de que a comunidade seja incapaz de resolver pendências internas e pergunta se não há entre eles ninguém sábio o bastante para julgar, lembrando que os santos hão de julgar o mundo e até os anjos (1 Coríntios 6:2-5). Em Gálatas 2:11, Paulo conta que resistiu a Pedro na cara, em público, “porque era repreensível”. Um apóstolo julgou outro apóstolo e deixou o episódio registrado na Escritura como exemplo, sem nenhuma vergonha. João, o apóstolo do amor, escreve: “Amados, não creiais em todo espírito, mas provai se os espíritos são de Deus” (1 João 4:1), e provar espíritos é uma atividade de juízo do começo ao fim. Os bereanos, por sua vez, são chamados de mais nobres justamente porque examinavam diariamente as Escrituras para ver se o que Paulo dizia era assim mesmo (Atos 17:11). Ninguém ali foi repreendido por julgar a pregação do maior apóstolo, e o texto os elogia.
Há ainda a disciplina eclesiástica que o próprio Jesus instituiu em Mateus 18:15-17, um processo em etapas que começa com a correção privada, passa pelas testemunhas e termina na assembleia, com a possibilidade de tratar o impenitente como gentio e publicano. Nenhuma dessas etapas funciona sem que alguém avalie uma conduta e a declare incompatível com a fé professada. Gálatas 6:1 manda que os espirituais restaurem o que for surpreendido em alguma falta, e Tito 3:10 manda rejeitar o homem faccioso depois de uma ou duas advertências. A Bíblia inteira pressupõe uma igreja que discerne, avalia e corrige, e uma igreja que não faz isso cai nas repreensões duras que o Apocalipse dirige a Pérgamo e Tiatira por tolerarem o ensino de Balaão e de Jezabel (Apocalipse 2:14-20).
Se o julgamento é ordenado em tantos textos, o que exatamente o Senhor proíbe? A resposta aparece quando se juntam as peças. Ele proíbe o juízo hipócrita, de quem exige do outro uma santidade que não vive, e é por isso que Paulo, em Romanos 2:1, diz que quem julga o outro pelas mesmas coisas que pratica condena a si mesmo. Proíbe o juízo apressado, que sentencia motivações do coração que só Deus enxerga, e Paulo trata disso em 1 Coríntios 4:5, ao mandar que ninguém julgue antes do tempo, até que o Senhor venha e manifeste os desígnios dos corações. Proíbe o juízo de condenação final, aquele que usurpa a cadeira que pertence somente ao Altíssimo, como diz Tiago: “Há apenas um legislador e juiz, aquele que pode salvar e destruir; quem és tu que julgas o teu próximo?” (Tiago 4:12). Proíbe também o juízo que se faz sobre questões de consciência e liberdade, as chamadas coisas duvidosas, sobre as quais Paulo escreve em Romanos 14:4: “Quem és tu que julgas o servo alheio? Para o seu próprio senhor, ele está em pé ou cai.” Ninguém é dono do destino eterno do irmão, e ninguém é árbitro das convicções privadas que a Escritura deixou em aberto.
Fora disso, o que o crente tem diante de si é um dever. Dizer que determinada prática é pecado quando a Palavra assim o declara, que determinado ensino é heresia quando contradiz o evangelho (Gálatas 1:8-9), que determinada conduta exige arrependimento quando a Escritura a condena, nada disso é arrogância. É obediência. A arrogância está em fazê-lo sem lágrimas, sem o exame prévio da própria vida e sem o desejo real de ver o irmão restaurado, que é a trave da qual Jesus falou. O julgamento que ele aprova nasce de quem já passou pelo espelho da Palavra e sai dele quebrantado, e esse tipo de pessoa costuma corrigir devagar e com a voz embargada, o oposto do caricato “juiz da fé” que a cultura aprendeu a temer.
Quando alguém usar Mateus 7:1 como escudo, convém lembrar a essa pessoa que o versículo seguinte fala da medida com que se mede, e que essa medida volta sobre quem a empunha. Quem pede ao cristão que cale diante do erro está usando uma régua de silêncio, e é essa régua que terá de enfrentar diante do Juiz verdadeiro. Os cristãos que acreditaram nisso por gerações não foram mais amorosos que seus antepassados, apenas mais calados, e o silêncio nunca salvou ninguém. A graça que Cristo ofereceu na cruz custou o sangue dele precisamente porque o pecado era real, grave e digno de ser nomeado, e uma igreja que perdeu a coragem de nomeá-lo perdeu, junto com ela, a capacidade de anunciar o perdão.
Carlos Belchior Júnior, João Pessoa, Paraíba.
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