Apologética

Banalizaram os relacionamentos.

Banalização

Há alguns anos, venho observando com certa tristeza e espanto que as relações interpessoais vêm se degradando ano após ano. O sexo, por exemplo, tornou-se quase um exercício físico; não é mais necessário haver sentimentos, apreço ou respeito. Basta o querer, o minuto de vontade, o puro e simples “encontro” ou, como dizem por aí, as “afinidades”. Confesso que, no meu tempo, não vi esse tal sexo por afinidade; essa vontade instantânea eu também desconheço e, o tal “apenas querer”, se existia, graças a Deus, não tomei conhecimento.

Hoje, um aperto de mão praticamente se tornou mais íntimo do que um beijo, e o beijo, mais íntimo do que o sexo. Atos que deveriam carregar significado são praticados com uma naturalidade desconcertante, enquanto um simples cumprimento, como um aperto de mão ou dois beijinhos no rosto, parece algo quase extraterreno, reservado a uma formalidade que se perdeu. Fico imaginando: que tipo de pais e mães essas pessoas serão? A situação já está em declínio nesta geração; imagine na próxima, que será por ela tutelada.

Isso porque ainda nem entrei no mérito religioso da questão. Se adentrarmos nesse território, veremos que rasgaram a Bíblia ao meio faz tempo, e esta geração está terminando de picotá-la. O engraçado é que não vejo mais o jovem de bom senso. Ou é 8, ou é 80; o equilibrado da história sumiu, virou fumaça, provavelmente engolido por um desses dois extremos. Vejo jovens muito concentrados, corretos ao extremo, ou vejo a personificação da perdição completa.

Dá a entender que não se ensinou o bom e velho equilíbrio a esse povo. Uma turma que tudo faz, enquanto a outra nada faz, provavelmente reflexo da total falência da tentativa de unir ambos os estilos.

Quero deixar extremamente claro que o que digo não tem relação com classe social, crença ou cor da pele. A perdição e a falta de retidão moral estão em todos os lugares. Se eu não esclarecer isso, a crítica recairá sobre quem vos escreve. É triste constatar que o íntimo se tornou quase público, que a retidão, a ética, a moral e os bons costumes estão travestidos de imoralidade e pura aparência. E a aparência, digo-lhes, hoje engana 100%. Não pense você, caro leitor, que o jovem de rosto angelical e comportamento fino está fora dessa dinâmica. Ledo engano. Eles estão lá dentro, enlameados até o pescoço e fazendo escola.

Obviamente, não podemos generalizar, e não o fiz. Como já citado, ainda há, graças ao meu bom, Deus, jovens extremamente centrados e distantes dessa esbórnia. Ainda há gente sensata, pena que não seja a maioria. Com o passar dos anos, eu fui me “adormecendo” e, quando dei por mim, a libertinagem já havia começado há muito tempo, a ponto de hoje eu dificilmente conseguir dialogar com essa turma do “vale tudo”. No pouco convívio com essas personalidades, apenas escuto: “isso é besteira” ou “você ainda não viu nada”. É verdade, não vi e nem quero ver. Deixo, com toda a alegria do mundo, para quem é de direito ser useiro e vezeiro desse comportamento.

Essa superficialidade cobra um preço invisível, mas devastador. A busca incessante por estímulos momentâneos e a recusa em construir laços profundos geram um vazio existencial que nem mil encontros casuais podem preencher.

A consequência direta é uma epidemia de solidão, mesmo em meio a multidões e listas de contatos infindáveis. Ao se desvalorizar a intimidade, perde-se também a capacidade de ser vulnerável e, com isso, a oportunidade de se conectar verdadeiramente com outro ser humano, resultando em uma geração emocionalmente subnutrida e cronicamente insatisfeita.

A tecnologia, por sua vez, atua como um catalisador para essa nova dinâmica social. Aplicativos de relacionamento transformaram pessoas em produtos de prateleira, avaliados e descartados com o deslizar de um dedo. As redes sociais se tornaram palcos para a desempenho da felicidade e da popularidade, onde a quantidade de “curtidas” importa mais do que a qualidade das interações. Essa cultura do imediatismo digital nos condicionou a esperar gratificações instantâneas em todas as áreas da vida, inclusive nas relações, tornando a paciência, o esforço e a dedicação, ingredientes essenciais para qualquer vínculo duradouro, em artigos de luxo.

Diante desse cenário, a questão que se impõe é: quem terá razão? Saberemos em poucos anos se esta é a minha mente, supostamente atrasada e retrógrada, ou a mentalidade “evoluída” e libertina de hoje.

O que afirmo categoricamente é que não conheço pessoas de bem que construíram uma vida sólida ou se casaram com indivíduos oriundos desse meio. Hoje, em um mundo globalizado, o planeta se tornou pequeno, e tudo o que se faz, se sabe. É com o coração triste e a sensação de incapacidade de avisar os desavisados que observo esse caminho, que não pode e nem terminará bem.

A cada passo nesse sentido, a distância para valores fundamentais, sejam eles representados por Cristo ou pela simples dignidade humana, torna-se maior, a ponto de virar um abismo. Depois, não adiantará correr para o pé da igreja, chorar e buscar desculpas, pois o Deus que conheço é, acima de tudo, justo.

Termino, como sempre, com uma frase de alguém que admiro. Desta vez, do escritor austríaco Karl Kraus, indicado duas vezes ao Nobel de Literatura (e aproveito o espaço para indicar um de seus livros, “Os Últimos Dias da Humanidade”):

“Educação é aquilo que a maior parte das pessoas recebe, muitos transmitem e poucos possuem.”

Júnior Belchior

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