Reflexões

O Labirinto do Autoengano – Por Júnior Belchior

Autoengano

Podemos afirmar que o autoengano é um processo mental que leva uma pessoa a aceitar como verdadeira uma informação que, momentos antes, ela mesma considerava falsa. Deve ser extremamente angustiante e confuso saber a verdade, mas desejar a mentira.

A confusão mental deve ser avassaladora, vivendo em uma ilusão constante e sabotando a si mesma. Isso deve ser como estar preso em um labirinto mental. Há muitas pessoas que parecem fortes durante o dia, mas à noite choram como crianças. São indivíduos cuja suposta força reside apenas na superfície, pois, na realidade, não conseguem sequer expressar seus verdadeiros desejos. Vivem de aparências, exibindo uma força que é, na verdade, pura encenação.

Elas enganam a si mesmas, demonstrando serem duras e impiedosas, mas tudo isso é apenas uma máscara, um personagem cuidadosamente encenado para obter elogios e aceitação. Normalmente, são narcisistas, alegando serem perfeitas e incapazes de errar ou de se responsabilizar por algo. Isso é bastante triste e angustiante, visto que, ao se enganarem e acreditarem nessa ilusão, é fácil enganar os outros. Aqueles com menos experiência arriscam duvidar de si e da realidade evidente. Não é maldade, mas um mundo imaginário que pode se manifestar em relacionamentos, no trabalho ou em amizades.

Essas pessoas têm um lado bom, mas suas mentes se perderam em um labirinto tão vasto que, na informática, apelidamos de “loop” infinito. Para voltar à normalidade, é necessário um choque de realidade. O comportamento dessas pessoas é frequentemente contraditório: dizem não gostar do que gostam, juram não querer o que desejam, não demonstram vontade quando a têm, negam quando estão gostando. É uma situação sem fim e sem lógica. É escusado discutir com elas; é melhor agir como se nada soubesse, deixar a corda esticar e, no momento certo, dar um puxão! Isso, talvez, poderá surpreendê-las.


O autoengano serve, em muitos casos, como um mecanismo de defesa primitivo, uma forma de o ego se proteger de verdades dolorosas ou de sentimentos de inadequação. A pessoa cria uma versão de si mesma que é invulnerável, infalível e admirável, pois a realidade de suas falhas e vulnerabilidades é insuportável. Essa fuga da verdade gera uma dissonância cognitiva profunda, onde a mente se divide entre o que realmente sente e a mentira que precisa sustentar.

O esforço para manter essa fachada é exaustivo, e é essa exaustão que se manifesta nas lágrimas noturnas, nos acessos de raiva ou na ansiedade que muitos tentam sufocar. A ilusão é um refúgio temporário, mas o preço a se pagar é a paz interior.

Nas relações interpessoais, o autoengano é particularmente destrutivo. A pessoa que vive em uma realidade fabricada não consegue estabelecer laços de confiança e intimidade genuínos. Amigos e parceiros se veem constantemente pisando em ovos, tentando decifrar o que é real e o que é encenação.

O relacionamento se torna um jogo de adivinhação, onde a sinceridade é trocada por uma dança de máscaras e contradições. A longo prazo, essa dinâmica esgota emocionalmente todos os envolvidos e, inevitavelmente, leva ao isolamento do enganador, que, por fim, se vê cercado por ecos de suas próprias mentiras, sem ninguém para compartilhar o seu verdadeiro eu.

A única saída desse labirinto mental é o que o autor chama de “choque de realidade”. Esse choque não é algo que pode ser facilmente induzido por terceiros, mas sim um momento de crise profunda, onde a fachada desmorona e a pessoa é forçada a confrontar a verdade sobre si mesma. Pode ser a perda de um relacionamento, o fracasso de um projeto ou um evento que abale completamente a sua autoimagem. Somente quando a dor da realidade se torna maior que o conforto da mentira é que a pessoa pode começar a trilhar o caminho da honestidade e da cura. Não é um processo rápido ou fácil, e requer coragem para aceitar as próprias imperfeições, mas é o único caminho para a liberdade e para a construção de uma vida autêntica.


Não é todo mundo que consegue lidar com essas questões; é preciso ter paciência e calma. A vida e a experiência são grandes mestres, mas os pré-requisitos mencionados são essenciais. Termino com uma citação minha, escrita recentemente, embora eu geralmente prefira citar pessoas mais conhecidas: “A loucura é a razão que optou por outro caminho.”

Junior Belchior

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