Grito Silenciado

Conhecida como a doença do século, a depressão tem caminhado a passos largos, resultando em episódios horripilantes na vida de quem sofre desse mal. Infelizmente, não é incomum vermos notícias de pessoas que, em um ato de desespero e sofrimento inimaginável, dão cabo à própria vida. Estima-se que mais de 300 milhões de pessoas, de todas as idades, sofram com esse transtorno.
A depressão é a principal causa de incapacidade em todo o mundo e contribui de forma importante para a carga global de doenças. No Brasil, estima-se que 5,5% da população sofra com a doença, ou seja, em torno de 11 milhões de pessoas são portadoras desse mal, oficialmente.
Logicamente, estamos falando de dados oficiais; a realidade é muito maior. O número de pessoas que, em silêncio, convivem com tamanho revés é estimado pela Organização Mundial da Saúde como, no mínimo, três vezes maior, o que significa aproximadamente 15% da população brasileira, ou 30 milhões de pessoas — um número assustador. Outro dado preocupante vem da OPAS, que, em seu relatório de junho de 2020, apontou um crescimento de 32% nos diagnósticos de transtornos de ansiedade e 35% de depressão.
O mais grave, triste e revoltante vem agora: 8 em cada 10 pessoas com problemas graves de saúde mental, ou seja, 80%, não tiveram acesso adequado a tratamentos necessários durante o ano de 2020, segundo o relatório “Uma Nova Agenda para a Saúde Mental na Região das Américas”. Os dados fizeram a entidade pedir que os líderes de cada país das Américas coloquem a saúde mental no topo de suas prioridades, o que nunca aconteceu e talvez nem aconteça. Afinal de contas, enquanto o problema estiver no vizinho, está ótimo.
É urgente uma mudança cultural acerca das doenças mentais. Não é mais admissível que quem frequente um psicólogo ou psiquiatra seja taxado de louco, doido ou improdutivo devido a uma questão de saúde que não tem a ver apenas com o psiquismo, mas também com um lado fisiológico. O depressivo não é depressivo por opção, não acordou um belo dia, olhou no espelho e disse: “Hoje vou virar depressivo e ansioso”.
Isso é uma ideia do tempo jurássico. As pessoas que debocham, recriminam ou enchem a boca de inúmeras besteiras e inverdades estão fazendo um desfavor à sociedade e jogando ao limbo seres humanos com problemas psíquicos e fisiológicos que, com o tratamento adequado, poderiam ter uma vida normal. Não existe improdutividade, preguiça ou falta de vontade na depressão; o que existe é uma doença que paralisa, desmoraliza e agiliza a falta de vida social em todas as vertentes.
Na Idade Média, a Igreja Católica e outras denominações, ao se depararem com tais pessoas, as expurgavam da sociedade. Excluídas, abandonadas e, em casos mais graves, queimadas na fogueira com a desculpa de estarem endemoniadas ou serem adeptas da bruxaria. Ataques de pânico também eram motivo para uma morte terrível por puro desconhecimento. Atualmente, passados quase 500 anos de tais acontecimentos, as pessoas não estão sendo levadas ao crematório, mas a vergonha, o desprezo, o preconceito e a exclusão continuam, o mais rápido possível.
A persistência do estigma é um reflexo direto da falta de educação e empatia da sociedade, que ainda não compreende a seriedade e a complexidade das doenças mentais. O medo e a ignorância em torno do assunto criam uma barreira intransponível, impedindo que milhões busquem a ajuda de que precisam.
A depressão precisa de um olhar governamental mais forte. Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) não bastam; são apenas um local para jogar as pessoas e os problemas em um amontoado que não trata ninguém, apenas oferecem um paliativo quase desumano a quem não tem condições para os consultórios de luxo ou as clínicas que mais parecem um hotel cinco estrelas.
É urgente e necessário que o Estado assuma sua responsabilidade, investindo massivamente em infraestrutura de saúde mental, capacitando profissionais, ampliando o acesso a terapias e medicamentos, e promovendo campanhas de conscientização que desmistifiquem as doenças mentais. A falta de tratamento adequado não é apenas um problema de saúde, mas uma questão de justiça social e direitos humanos que precisa ser enfrentada.
Não sei se estamos longe ou perto do dia em que algum governo ou político compre essa briga de dar um tratamento adequado e o valor merecido a quem porventura necessite de tratamento e não de exclusão, mas o fato é que, na maioria dos municípios brasileiros, isso é tratado como resto — resto de orçamento, apenas para abafar o problema. Enquanto pouco ou nada é feito, oremos por aqueles que não conseguem sequer a medicação para atenuar um sofrimento inimaginável, recriminatório e perverso.
A luta pela saúde mental é, portanto, uma batalha diária que exige não só a compaixão e o apoio de amigos e familiares, mas um comprometimento coletivo para construir um mundo mais acolhedor e menos julgador para aqueles que sofrem em silêncio.
Termino sempre com uma frase e hoje escolhi uma, conforme o tema, do escritor Augusto Cury: “Nunca despreze as pessoas deprimidas. A depressão é o último estágio da dor humana”.
Júnior Belchior
