36 horas morto? Essa pergunta já derrubou a fé de muita gente. E já foi usada por céticos como prova de que os evangelhos se contradizem. Jesus prometeu três dias e três noites no sepulcro; os discípulos anunciaram a ressurreição no terceiro dia, e, quando você faz a conta no calendário, o número que aparece é 36 horas. Metade do prometido. Se Jesus errou nessa, errou em tudo.
Só que, antes de corrigir o cálculo, é preciso entender de onde ele vem.
Mateus 12.40 é o versículo em questão. “Assim como Jonas esteve três dias e três noites no ventre do grande peixe, assim o Filho do Homem estará três dias e três noites no coração da terra.” A promessa é pública, é solene, é feita diante dos fariseus como o único sinal que seria dado a eles. Jesus estava jogando tudo nessa afirmação. Se ela falha, a ressurreição falha junto.
Então, de onde vêm os três dias? A conta começa na crucificação.
João 19.14 diz que era “cerca da sexta hora” quando Jesus estava diante de Pilatos. No calendário romano, a sexta hora é meio-dia. Marcos 15:25 diz que era “a hora terceira” quando o crucificaram, que, no calendário judaico, equivale às nove da manhã. Essa tensão entre os dois calendários já é um problema separado, mas o fato é que todos os evangelhos convergem para uma morte na tarde da sexta-feira. Mateus 27.46 registra que “cerca da nona hora”, ou seja, por volta das três da tarde no nosso horário, Jesus clamou e logo depois entregou o espírito.
Depois disso, José de Arimateia foi a Pilatos pedir o corpo. Pilatos se surpreendeu com a rapidez da morte, confirmou com o centurião e liberou o corpo. Nicodemos trouxe as especiarias. O sepultamento aconteceu às pressas porque o sábado estava chegando, com o pôr do sol marcando o início do dia de descanso judaico. O corpo de Jesus entrou no sepulcro faltando poucas horas para o sábado começar.
O sábado inteiro ele permaneceu sepultado, 24 horas completas do pôr do sol da sexta até o pôr do sol do sábado. E, quando as mulheres chegaram ao sepulcro “muito cedo, sendo ainda escuro”, como João 20.1 descreve, Jesus já havia ressuscitado. Isso significa que ele ficou algumas horas do domingo no sepulcro, talvez menos do que isso.
Some tudo: algumas horas da sexta, 24 horas do sábado, algumas horas do domingo. O número que aparece é aproximadamente 36 horas. Não, 72. E aí a objeção fica em pé: Jesus prometeu “três dias e três noites”, que qualquer pessoa entenderia como 72 horas, e o que temos nos evangelhos é metade disso.
A resposta não está no calendário. Está na língua.
A palavra hebraica para dia é iom. E, na tradição judaica do primeiro século, uma fração de iom era contada como um iom completo. Não era exceção, não era licença poética, não era uma maneira conveniente de escapar de um problema. Era o padrão de contagem da cultura. O Talmude registra isso em Shabbat 9b com precisão. Os rabinos discutiam leis e prazos com base nesse princípio, e nenhum leitor judeu do primeiro século teria piscado ao ouvir Jesus falar em “três dias”, incluindo frações de dias distintos.
A Bíblia demonstra isso antes mesmo de você chegar ao Novo Testamento. Em Ester 4.16, Ester convoca três dias de jejum. No capítulo seguinte, versículo 1, ela vai ao rei “no terceiro dia”. Pelo relógio moderno, seria o segundo dia completo. Pelo calendário judaico, era o terceiro, porque o dia em que o jejum começou contava como primeiro. Nenhum leitor judeu da época ficou confuso com isso. A confusão é nossa, não do texto.
Ele aparece em 1 Reis 20.29. Israel e a Síria ficam acampados por sete dias e combatem no sétimo. A contagem inclusiva está ali, sem nenhuma explicação, porque não precisava de explicação para quem vivia dentro dessa convenção.
Agora volta para Jesus. A sexta-feira contava como primeiro dia, mesmo que ele tenha entrado no sepulcro faltando pouco para o pôr do sol. O sábado contava como segundo dia, completo. O domingo contava como terceiro dia, mesmo que a ressurreição tenha acontecido antes do amanhecer. Três dias no calendário judaico, sem forçar nenhuma interpretação, sem dobrar nenhum versículo.
E os próprios evangelhos confirmam isso sem nenhum constrangimento. Jesus usa as duas expressões de forma intercambiável ao longo do seu ministério. Em Mateus 12.40 diz: “três dias e três noites”. Em Mateus 16.21 diz que ressuscitaria “ao terceiro dia”. Em Lucas 24.7, os anjos repetem aos discípulos que o Filho do Homem ressuscitaria “ao terceiro dia”. Se “três dias e três noites” significasse literalmente 72 horas contadas do sepultamento, a expressão “ao terceiro dia” criaria uma contradição interna dentro do próprio Mateus. Os evangelistas usam as duas expressões sem nenhuma tensão, porque para eles não havia tensão. Estavam dizendo a mesma coisa com formulações diferentes, ambas reconhecíveis dentro da convenção linguística judaica.
Tem ainda uma camada que a maioria das discussões populares ignora. O grego de Mateus 12.40 usa “três dias e três noites”, que é uma construção idiomática do judaísmo helenístico. Mateus escreve em grego para leitores que conheciam a Bíblia hebraica e usa uma expressão idiomática que esses leitores reconheciam sem dificuldade. O problema começa quando leitores modernos, sem esse contexto, tratam um idioma como protocolo científico. É o mesmo erro de quem lê “o sol nasceu” e acusa o autor de não saber astronomia.
Os pais da Igreja também não viram contradição. Tertuliano, no final do segundo século, trata a ressurreição de Cristo e a contagem dos três dias sem qualquer constrangimento. Clemente de Alexandria, no mesmo período, trabalha a questão, assumindo a contagem inclusiva judaica como dado óbvio. A “contradição” que hoje parece grave para alguns simplesmente não existia para quem estava mais próximo do contexto cultural do texto.
O sinal de Jonas não falhou. Jesus ficou no coração da terra durante três dias do calendário judaico, ressuscitou no terceiro dia como prometeu, e os que estavam mais próximos do texto nunca precisaram de nenhuma nota de rodapé para entender isso. A dificuldade é nossa. É a dificuldade de quem lê um texto antigo com pressupostos modernos e depois culpa o texto pela confusão.
Ler a Bíblia exige o que qualquer leitura séria de qualquer documento histórico exige: conhecer o mundo em que ele foi escrito. Quando você faz isso, as aparentes contradições não somem por força de vontade. Elas somem porque nunca estiveram lá.
John Stott: “A fé cristã não é um salto no escuro. É um passo para a luz, baseado em evidências que resistem ao exame mais rigoroso.”
Carlos Belchior Júnior
João Pessoa, Paraíba.
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