Se Deus é justo, por que permite que pessoas boas morram enquanto tantas pessoas perversas continuam vivendo?
O que mais nos incomoda na morte, nem sempre é a perda, mas a sensação de que ela levou a pessoa errada. Uma mãe dedicada morre deixando filhos pequenos. Um homem honesto, que passou a vida ajudando os outros, parte inesperadamente. Enquanto isso, pessoas cruéis, corruptas e indiferentes ao sofrimento alheio continuam vivendo, algumas desfrutando de saúde, riqueza e longevidade. Diante dessa realidade, surge uma pergunta que até os cristãos mais experientes têm dificuldade de responder: se Deus é justo, por que permite que pessoas boas morram tão cedo?
A primeira coisa que precisamos compreender é que a Bíblia nunca prometeu que a bondade humana seria uma proteção contra a morte. Em Eclesiastes 7:15, encontramos uma observação desconcertante: há justos que perecem apesar de sua justiça e perversos que prolongam seus dias apesar de sua maldade. O próprio Jó foi apresentado como um homem íntegro, reto e temente a Deus, mas isso não impediu que enfrentasse tragédias devastadoras, incluindo a morte de seus filhos. Portanto, a ideia de que pessoas boas deveriam necessariamente viver mais não encontra sustentação nas Escrituras.
Jesus também enfrentou essa questão. Em Lucas 13:1 a 5, mencionou pessoas assassinadas por Pilatos e outras dezoito que morreram quando uma torre caiu em Siloé. Cristo perguntou se aquelas vítimas eram mais pecadoras que os demais habitantes de Jerusalém e rejeitou essa conclusão. Sua resposta desmonta uma interpretação religiosa bastante comum: acreditar que toda tragédia representa um castigo particular de Deus. A morte faz parte da condição humana marcada pelo pecado, conforme Romanos 5:12, mas isso não significa que cada pessoa morra em consequência de alguma culpa específica. Uma criança que morre de uma enfermidade não está sendo punida por ser pior do que outra que sobreviveu.
Mas alguém poderia perguntar: se Deus tem poder para impedir essas mortes, por que não interfere? A resposta exige humildade. Em Atos 12, encontramos dois acontecimentos impressionantes. Tiago, irmão de João, foi executado por ordem de Herodes, enquanto Pedro, também preso, foi libertado milagrosamente por um anjo. Ambos eram apóstolos, serviam ao mesmo Senhor e anunciavam o mesmo Evangelho. Por que Deus permitiu que Tiago morresse e salvou Pedro? A Bíblia não apresenta uma explicação específica. Afirmar que Pedro tinha mais fé ou que Tiago era menos amado seria inventar uma resposta que as Escrituras não oferecem. A soberania de Deus não significa que conhecemos todas as razões de sua providência.
Existe, porém, um detalhe ainda mais profundo. O homem mais justo que já viveu também morreu. Jesus Cristo nunca pecou, jamais praticou uma injustiça e passou sua vida fazendo o bem. Mesmo assim, foi traído, condenado e crucificado. Se a justiça pessoal garantisse imunidade contra a morte, Cristo jamais teria sido levado ao Calvário. Evidentemente, sua morte possui um significado redentor único, mas ela demonstra que sofrimento e morte não são, por si mesmos, evidências do abandono divino. Deus não prometeu preservar seus servos de toda tragédia. Prometeu algo maior: a vitória definitiva sobre a morte por meio de seu filho.
Isso não significa que devemos aceitar a perda de alguém sem tristeza. Quando Lázaro morreu, Jesus encontrou uma família mergulhada no sofrimento. Embora soubesse que ressuscitaria seu amigo, o próprio Cristo chorou, conforme João 11:35. Essa passagem revela algo extraordinário: aquele que tinha poder sobre a morte não desprezou as lágrimas de quem sofria. Por isso, dizer a uma mãe que perdeu seu filho que ela não deveria chorar porque precisa confiar em Deus não é demonstração de maturidade espiritual. É desconhecer a sensibilidade do próprio Salvador. A fé cristã não elimina o luto, mas oferece esperança para atravessá-lo.
Também precisamos abandonar certas explicações religiosas que parecem confortadoras, mas não possuem fundamento bíblico. Dizer que Deus leva primeiro os melhores, que precisava de mais um anjo no céu ou que determinada pessoa morreu porque sua missão havia terminado são afirmações que ultrapassam aquilo que sabemos. O fato de Deus conhecer o futuro não nos autoriza a explicar os motivos particulares de cada morte. Em determinadas circunstâncias, o silêncio acompanhado de compaixão é muito mais cristão do que um discurso cheio de certezas que Deus nunca revelou.
A aparente prosperidade dos perversos também incomodou Asafe, autor do Salmo 73. Ele observava a tranquilidade de pessoas arrogantes enquanto os justos enfrentavam aflições. Sua compreensão mudou quando passou a considerar o destino final dos ímpios. Séculos depois, Agostinho, em “A Cidade de Deus”, livro I, capítulo 8, refletiu sobre como as adversidades temporais atingem tanto os justos quanto os injustos. A lição é importante: não podemos avaliar toda a justiça divina apenas pelos acontecimentos desta vida. A longevidade não comprova a aprovação de Deus, assim como uma morte prematura não demonstra sua rejeição.
Entretanto, precisamos fazer uma distinção fundamental. Quando chamamos alguém de bom, geralmente estamos reconhecendo sua generosidade, honestidade e dedicação ao próximo. Isso é legítimo, mas não significa que essa pessoa seja moralmente perfeita diante de Deus. A Escritura ensina que todos pecaram e necessitam da graça divina, conforme Romanos 3:23. A esperança da vida eterna não está fundamentada simplesmente em termos de pessoas boas, mas na salvação oferecida por Jesus Cristo, mediante a fé. Transformar a bondade humana numa garantia automática de salvação seria substituir o Evangelho por uma espécie de recompensa moral.
Por fim, o cristianismo não apresenta a morte como uma realidade boa em si mesma. Paulo a chama de último inimigo a ser destruído, em 1 Coríntios 15:26. E João anuncia, em Apocalipse 21:4, que chegará o dia em que Deus enxugará todas as lágrimas e não haverá mais morte, luto ou dor. A promessa cristã não é que os fiéis jamais enfrentarão sepultamentos, mas que a morte não permanecerá reinando para sempre. A ressurreição de Cristo é o fundamento dessa esperança.
Portanto, por que Deus permite que pessoas boas morram? Sabemos que a morte alcança toda a humanidade e que nossa conduta moral não determina necessariamente quantos anos viveremos. O que não sabemos é por que Deus permite que determinada pessoa parta naquele momento específico. Reconhecer esse limite não representa falta de fé, mas respeito àquilo que Deus efetivamente revelou. Não precisamos inventar explicações para defender sua justiça, nem fingir que a saudade desaparece porque acreditamos na eternidade. Podemos chorar pelos que partiram, reconhecer a dor de sua ausência e continuar confiando naquele que venceu a morte. Afinal, a grande promessa do Evangelho nunca foi que os justos jamais entrariam no túmulo, mas que, por causa de Jesus Cristo, o túmulo não teria a palavra final.
Carlos Belchior Júnior, João Pessoa, Paraíba.
Obs.: Este artigo foi escrito a pedido do amigo Filipe Lira.
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