Embora não estivesse em meus planos escrever sobre este tema apesar de ter frequentado uma escola de padres durante minha juventude e crescido em um ambiente católico, em um colégio exclusivo para meninos –, desde 2008 sou evangélico e evitava adentrar “na cozinha alheia”.
No entanto, ao assistir a um vídeo após a morte de Jorge Mario Bergoglio (o Papa Francisco), senti o dever de compartilhar algumas reflexões sobre esse extraordinário servo de Deus.
O vídeo mostrava uma cena comovente: um menino de cerca de 10 anos, em lágrimas desesperadas durante uma aparição pública do Papa. Francisco, percebendo seu sofrimento, pediu à segurança que o deixasse aproximar-se. O garoto, visivelmente nervoso – tanto pela dor que carregava quanto pelo fato de estar diante do líder de sua religião –, congelou diante do Pontífice.
Com sensibilidade, o Papa perguntou se ele preferia sussurrar ao seu ouvido. O menino concordou com a cabeça e, entre soluços, contou em voz baixa: *”Meu pai morreu ateu, e o pensamento de que ele possa estar no inferno me assusta todos os dias.”*
Essa cena me transportou à morte do meu próprio pai, que, embora se declarasse católico, não era praticante nem demonstrava fé clara. Na época, com apenas 20 anos, eu também me questionava: *”Onde ele estaria agora?”* Ver aquele jovem buscando consolo no Papa me fez reconhecer que estávamos diante de um líder verdadeiramente *inclusivo*.
Francisco poderia ter delegado a situação a um cardeal, mas escolheu ouvir pessoalmente a criança – um gesto que demonstrava sua compreensão de que, às vezes, a autoridade de uma palavra faz toda a diferença.
Depois de ouvir o menino, o Papa o abraçou, enxugou suas lágrimas com a manga de sua veste litúrgica e perguntou: *”Seu pai levou você e seus irmãos para serem batizados?”*
*”Sim, Santo Padre”*, respondeu o garoto.
Francisco então pegou o microfone, explicou a situação aos fiéis e, de braços dados com o menino, questionou: *”Um pai que se preocupa em batizar seus filhos pode estar no inferno, mesmo sendo ateu? O que vocês acham?”*
A multidão respondeu em uníssono: *”Não!”*
Olhando nos olhos da criança, o Papa completou: *”Só Deus decide quem vai ou não para o inferno. Mas, pelos atos do seu pai, tenho absoluta certeza de que ele está no céu.”*
O menino, aliviado, abraçou Francisco, beijou o anel de São Pedro e afastou-se com a paz que tanto buscava.
Essa cena me levou a profundas reflexões. Francisco, mesmo sem certeza absoluta, agarrou-se a um detalhe – o batismo – para oferecer consolo àquela criança. Poderia ter dito *”Só Deus sabe”*, mas compreendeu o impacto devastador que isso teria em um coração de 10 anos. Preferiu agir com empatia, assumindo a responsabilidade de transmitir esperança.
Francisco I foi um Papa que quebrava protocolos, protegia os excluídos e agia como pai dos menos favorecidos. Seu legado permanece. Ao final deste texto, expresso meu desejo de que seu sucessor seja um Papa africano ou asiático, levando a Palavra de Deus aos cantos mais distantes do mundo.
Para encerrar, homenageio Francisco, o *”includente”*, com uma de suas próprias frases:
Você só é livre se estiver em harmonia consigo mesmo.”
Júnior Belchior


