Apologética

Se Deus é bom, por que permite o sofrimento? – Júnior Belchior

O tópico abordado nesta coluna de hoje originou-se de uma questão levantada por um colega de trabalho que, de forma amigável e direta, me perguntou: “Por que Deus permite que os inocentes sofram? Sendo Deus, por que não evita certas atrocidades e situações similares?”

Essa é, talvez, uma das perguntas mais frequentes em discussões sobre a teologia. Respondi a esse amigo que vou explorar o tema aqui na coluna, pois pode ser uma dúvida compartilhada por muitas outras pessoas.

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Admito que já me questionei sobre isso anteriormente. Naquela época, procurei responder por meio de leituras, conversei com líderes religiosos e assisti a diversas palestras. No entanto, percebi que a confusão era ampla: raramente alguém oferecia uma resposta clara, preferindo dar voltas antes de abordar o que poderia ser explicado de maneira direta.

A realidade é que Deus nos concedeu o livre-arbítrio. Assim, não seguimos apenas os desejos de Deus, mas aquilo que Ele nos permite fazer. É crucial lembrar que nós, humanos, fomos os responsáveis por trair a Deus no Éden, ao consumir o fruto que nos foi proibido.

A possibilidade de reconciliação só surgiu por meio de Jesus Cristo, que pagou um preço altíssimo: sua morte na cruz, levando sobre si todos os nossos pecados. Nesse instante, Cristo teve que se distanciar do Pai e sentir o peso da ira divina. A Bíblia menciona que Deus “se agradou em moê-lo,”, mas não estava vendo o Filho amado, e sim a pecaminosidade da humanidade.

Retornando ao ponto principal: quando questionamos por que Deus permitiu algo, é essencial refletir sobre duas perguntas fundamentais. Primeira: Quem pagou o preço mais elevado? E, segunda: se não tivéssemos livre-arbítrio, nosso amor a Deus seria genuíno ou apenas uma obrigação?

A questão da permissão divina para o sofrimento humano é uma das mais antigas e complexas na teologia e na filosofia. Ela atravessa gerações repleta de lamentos, orações e discussões, desafiando a fé dos crentes e servindo como ponto de argumento para os céticos. Como harmonizar a imagem de um Criador omnipotente, onisciente e benevolente com um mundo repleto de doenças, catástrofes, guerras e crueldades?

Esse enigma ficou conhecido como o Problema do Mal, descrito de forma clássica por Epicuro: se Deus quer impedir o mal, mas não consegue, então Ele não é todo-poderoso. Se Ele pode, mas não quer, não é bondoso. E se Ele pode e quer, de onde vem o mal? Essa formulação abriu caminho para as teodiceias, sendo as tentativas de justificar a bondade de Deus diante da presença do mal.

Uma das respostas mais robustas é a defesa do livre-arbítrio. Para que amor, virtude e bondade sejam genuínos, é essencial haver liberdade de escolha. Um mundo povoado por autômatos, incapazes de escolher o mal, não possuiria verdadeira moralidade. Dessa forma, ao nos dar liberdade, Deus também aceitou o risco de que poderíamos optar pelo mal e grande parte do sofrimento que testemunhamos é fruto exatamente dessa escolha.

Na teologia cristã, o sofrimento é comumente vinculado à Queda. A desobediência de Adão e Eva teria destruído a harmonia da criação, introduzindo dor, doenças e morte. Contudo, a perspectiva cristã não vê o sofrimento somente como algo negativo: ele pode atuar como um meio de desenvolvimento espiritual, cultivando qualidades como paciência, perseverança e compaixão.

A resposta cristã atinge seu clímax na cruz de Cristo. Deus não permaneceu alheio à dor, mas inseriu-se na história humana, assumindo a forma mais intensa de sofrimento e injustiça, transformando o sofrimento em esperança. A cruz não esclarece completamente a questão do mal, mas demonstra que Deus está presente nas dificuldades que o sofrimento não terá a palavra final.

Outras religiões também fornecem explicações. No Judaísmo, o Livro de Jó revela que nem todo sofrimento é originado do pecado. Deus mostra a Jó não uma lógica, mas a grandeza de Sua sabedoria, que ultrapassa a compreensão humana. Ademais, o conceito de “reparar o mundo”, convoca as pessoas a agirem contra o mal, se tornando colaboradores de Deus na missão de redenção.

No Islamismo, a vida é vista como um teste. O sofrimento tem a função de purificar, fortalecer a fé e aproximar o devoto de Deus. A paciência é considerada a maior virtude, e as dificuldades são vistas como sinais da misericórdia divina, despertando a alma para a dependência de Alá.

No Budismo, o sofrimento é considerado uma parte essencial da vida. A questão não está em entender o motivo de sua existência, mas em como superá-lo. O caminho indicado é prático: eliminar o desejo e o apego, alcançando assim a libertação (Nirvana).

Em última análise, talvez nenhuma explicação racional consiga realmente aliviar o coração humano diante da dor. Para os fiéis, a resposta não reside em uma lógica perfeita, mas na fé, na crença de que há um propósito divino, na solidariedade entre aqueles que sofrem e na esperança de um futuro onde cada lágrima será seca.

A indagação persiste. Não temos a resposta definitiva. Mas a fé nos incentiva a enfrentar essa situação, não apenas com razão, mas com esperança.

Normalmente encerro com uma citação, e hoje selecionei uma de Viktor Frankl, psiquiatra e sobrevivente do Holocausto:

“Se há um significado na vida, então deve existir um significado no sofrimento.”

Júnior Belchior

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