
O tópico abordado nesta coluna de hoje originou-se de uma questão levantada por um colega de trabalho que, de forma amigável e direta, me perguntou: “Por que Deus permite que os inocentes sofram? Sendo Deus, por que não evita certas atrocidades e situações similares?”
Essa é, talvez, uma das perguntas mais frequentes em discussões sobre a teologia. Respondi a esse amigo que vou explorar o tema aqui na coluna, pois pode ser uma dúvida compartilhada por muitas outras pessoas.
Admito que já me questionei sobre isso anteriormente. Naquela época, procurei responder por meio de leituras, conversei com líderes religiosos e assisti a diversas palestras. No entanto, percebi que a confusão era ampla: raramente alguém oferecia uma resposta clara, preferindo dar voltas antes de abordar o que poderia ser explicado de maneira direta.
A realidade é que Deus nos concedeu o livre-arbítrio. Assim, não seguimos apenas os desejos de Deus, mas aquilo que Ele nos permite fazer. É crucial lembrar que nós, humanos, fomos os responsáveis por trair a Deus no Éden, ao consumir o fruto que nos foi proibido.
A possibilidade de reconciliação só surgiu por meio de Jesus Cristo, que pagou um preço altíssimo: sua morte na cruz, levando sobre si todos os nossos pecados. Nesse instante, Cristo teve que se distanciar do Pai e sentir o peso da ira divina. A Bíblia menciona que Deus “se agradou em moê-lo,”, mas não estava vendo o Filho amado, e sim a pecaminosidade da humanidade.
Retornando ao ponto principal: quando questionamos por que Deus permitiu algo, é essencial refletir sobre duas perguntas fundamentais. Primeira: Quem pagou o preço mais elevado? E, segunda: se não tivéssemos livre-arbítrio, nosso amor a Deus seria genuíno ou apenas uma obrigação?
A questão da permissão divina para o sofrimento humano é uma das mais antigas e complexas na teologia e na filosofia. Ela atravessa gerações repleta de lamentos, orações e discussões, desafiando a fé dos crentes e servindo como ponto de argumento para os céticos. Como harmonizar a imagem de um Criador omnipotente, onisciente e benevolente com um mundo repleto de doenças, catástrofes, guerras e crueldades?
Esse enigma ficou conhecido como o Problema do Mal, descrito de forma clássica por Epicuro: se Deus quer impedir o mal, mas não consegue, então Ele não é todo-poderoso. Se Ele pode, mas não quer, não é bondoso. E se Ele pode e quer, de onde vem o mal? Essa formulação abriu caminho para as teodiceias, sendo as tentativas de justificar a bondade de Deus diante da presença do mal.
Uma das respostas mais robustas é a defesa do livre-arbítrio. Para que amor, virtude e bondade sejam genuínos, é essencial haver liberdade de escolha. Um mundo povoado por autômatos, incapazes de escolher o mal, não possuiria verdadeira moralidade. Dessa forma, ao nos dar liberdade, Deus também aceitou o risco de que poderíamos optar pelo mal e grande parte do sofrimento que testemunhamos é fruto exatamente dessa escolha.
Na teologia cristã, o sofrimento é comumente vinculado à Queda. A desobediência de Adão e Eva teria destruído a harmonia da criação, introduzindo dor, doenças e morte. Contudo, a perspectiva cristã não vê o sofrimento somente como algo negativo: ele pode atuar como um meio de desenvolvimento espiritual, cultivando qualidades como paciência, perseverança e compaixão.
A resposta cristã atinge seu clímax na cruz de Cristo. Deus não permaneceu alheio à dor, mas inseriu-se na história humana, assumindo a forma mais intensa de sofrimento e injustiça, transformando o sofrimento em esperança. A cruz não esclarece completamente a questão do mal, mas demonstra que Deus está presente nas dificuldades que o sofrimento não terá a palavra final.
Outras religiões também fornecem explicações. No Judaísmo, o Livro de Jó revela que nem todo sofrimento é originado do pecado. Deus mostra a Jó não uma lógica, mas a grandeza de Sua sabedoria, que ultrapassa a compreensão humana. Ademais, o conceito de “reparar o mundo”, convoca as pessoas a agirem contra o mal, se tornando colaboradores de Deus na missão de redenção.
No Islamismo, a vida é vista como um teste. O sofrimento tem a função de purificar, fortalecer a fé e aproximar o devoto de Deus. A paciência é considerada a maior virtude, e as dificuldades são vistas como sinais da misericórdia divina, despertando a alma para a dependência de Alá.
No Budismo, o sofrimento é considerado uma parte essencial da vida. A questão não está em entender o motivo de sua existência, mas em como superá-lo. O caminho indicado é prático: eliminar o desejo e o apego, alcançando assim a libertação (Nirvana).
Em última análise, talvez nenhuma explicação racional consiga realmente aliviar o coração humano diante da dor. Para os fiéis, a resposta não reside em uma lógica perfeita, mas na fé, na crença de que há um propósito divino, na solidariedade entre aqueles que sofrem e na esperança de um futuro onde cada lágrima será seca.
A indagação persiste. Não temos a resposta definitiva. Mas a fé nos incentiva a enfrentar essa situação, não apenas com razão, mas com esperança.
Normalmente encerro com uma citação, e hoje selecionei uma de Viktor Frankl, psiquiatra e sobrevivente do Holocausto:
“Se há um significado na vida, então deve existir um significado no sofrimento.”
Júnior Belchior

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