Cristologia

O que Nunca Te Contaram Sobre a Sexta-Feira Santa.

O que Nunca Te Contaram Sobre a Sexta-Feira Santa.


Existe um dia no calendário cristão em que o céu ficou em silêncio, as trevas cobriram a terra e o Filho de Deus entregou o espírito. A Sexta-Feira Santa não é feriado, não é tradição, não é folclore religioso. É o dia em que a eternidade colidiu com o tempo e o Criador sangrou pelas mãos da criatura. E, por trás dessa data tão celebrada, existem realidades que a maioria dos cristãos nunca parou para investigar de verdade.

A expressão causa estranheza quando você para para pensar: como um dia de morte, de agonia e de sofrimento pode ser chamado de santo? A resposta está na teologia do sacrifício. O que torna esse dia santo não é a dor em si, mas o propósito por trás dela. A palavra “paixão”, usada na expressão Sexta-Feira da Paixão, vem do latim passio, que significa sofrimento. Não tem nada de romântico nisso. É suportar o insuportável com intenção redentora. O sofrimento de Cristo naquele dia não foi acidente. Foi agenda divina, e é isso que santifica a sexta-feira mais sombria da história.

Uma das curiosidades mais ricas da Sexta-Feira Santa é que ela é o único dia do ano em que a Igreja não celebra a Eucaristia. Nas igrejas católicas, não há missa. Não há consagração. Não há música. O silêncio litúrgico é intencional: a Igreja entra em luto porque o Cristo que a Eucaristia celebra está morto. A ausência do sacramento é ela mesma uma pregação. A liturgia do dia passa por três momentos: a Liturgia da Palavra, a Adoração da Cruz e a Comunhão. O altar nu, o silêncio pesado, os fiéis prostrados. Tudo aponta para o mesmo centro: “Consumado está” (João 19:30).

Você já reparou que a Sexta-Feira Santa muda de data todo ano? Ela é um dos três únicos feriados móveis do Brasil, ao lado do Carnaval e do Corpus Christi. Essa mobilidade não é arbitrária. A data da Páscoa, da qual a Sexta-Feira Santa depende, é calculada a partir de um sistema astronômico desenvolvido nos primeiros séculos da Igreja, que considera o ciclo lunar e o equinócio de primavera. Há algo profundo nisso que não consigo deixar de notar: o dia da morte e da ressurreição de Cristo não se deixa domesticar por uma grade fixa. Ele aparece a cada ano como um lembrete inesperado de que Deus não segue nossa agenda.

A colina do Calvário, em Jerusalém, é o ponto de peregrinação mais visitado em toda a Terra Santa. Os 600 metros da Via Dolorosa, percorridos por Jesus sob o peso da cruz, culminaram no lugar onde foi erguida a Basílica do Santo Sepulcro. Dois mil anos depois, pessoas de todas as nações ainda caminham aquele percurso com lágrimas nos olhos. O profeta Isaías havia descrito aquela cena com uma precisão que incomoda qualquer leitor honesto: “Ele foi ferido pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades” (Isaías 53:5).

A tradição do jejum e da abstinência de carne na Sexta-Feira Santa não é superstição. É teologia corporificada. A Igreja primitiva já praticava o jejum nesse dia como expressão de luto e identificação com o sofrimento de Cristo. A abstinência de carne vermelha é entendida como reverência ao sangue derramado por Jesus. O corpo sente o que a mente precisa processar. Há comunidades rurais que levavam isso tão a sério que não abatiam nenhum animal nesse dia. O jejum não salva ninguém, mas ele fala uma linguagem que o sermão mais elaborado às vezes não consegue falar: a linguagem da renúncia voluntária.

A prática da Via Sacra percorre as 14 estações que rememoram o caminho de Jesus desde a condenação até o sepultamento. Cada estação é uma parada diante de um momento específico da Paixão: a sentença de Pilatos, as quedas com a cruz, o encontro com Maria, a crucificação, a morte, o descendimento do corpo. Essa prática nasceu entre peregrinos que visitavam Jerusalém e queriam seguir os passos de Cristo literalmente. Com o tempo, foi trazida para dentro das igrejas para que todos, em qualquer lugar do mundo, pudessem caminhar com Jesus até o Gólgota. A Via Sacra não é encenação folclórica. É meditação encarnada sobre o custo real da redenção.

Após a morte de Jesus, uma grande rocha foi rolada para selar o túmulo (Mateus 27:60). Os líderes religiosos pediram a Pilatos que o sepulcro fosse guardado com soldados romanos, com medo de que os discípulos roubassem o corpo e proclamassem a ressurreição. Essa decisão foi, ironicamente, a maior prova que eles poderiam ter fornecido para o que viria a seguir. Um túmulo lacrado, selado com autoridade imperial e vigiado por soldados treinados. Mesmo assim, na manhã do terceiro dia, estava vazio. A Sexta-Feira Santa nunca pode ser entendida sozinha. Ela existe em tensão com o domingo que vem depois, e é essa tensão que sustenta toda a fé cristã, como Paulo declarou sem rodeios: “E se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé” (1 Coríntios 15:17).

Entre a sexta-feira e o domingo, existe um sábado que a teologia chama de Sábado Santo, e esse dia é quase sempre ignorado nas reflexões da Páscoa. É o dia do silêncio absoluto. Os discípulos estavam dispersos, aterrorizados, sem horizonte. Maria chorava. Pedro carregava o peso da negação. Nenhum deles sabia o que viria. Para eles, Jesus estava morto e sepultado, e o projeto havia terminado. Esse sábado representa todos os momentos em que nós também ficamos no silêncio entre a perda e a promessa, sem conseguir enxergar o domingo que está chegando.

No momento da morte de Jesus, o texto registra algo que a maioria das pessoas lê como detalhe, mas é muito mais do que isso: “o véu do templo rasgou-se em dois, de alto a baixo” (Mateus 27:51). Aquele véu separava o átrio externo do Santo dos Santos, o lugar onde a presença de Deus habitava e onde apenas o sumo sacerdote entrava uma vez por ano, sob risco de morte.

Com a morte de Cristo, Deus mesmo rasgou a barreira. O acesso que antes era privilégio de um passou a ser direito de todos os que creem. A Sexta-Feira Santa não encerra nada. Inaugura algo que nunca mais terá fim: o acesso direto, sem intermediários, à presença do Pai.

A cultura romana via a crucificação como a morte mais vergonhosa possível, reservada para escravos e criminosos. Paulo sabia disso e não tentou amenizar: a mensagem da cruz era escândalo para os judeus e loucura para os gregos (1 Coríntios 1:23). E, ainda assim, esse instrumento de execução tornou-se o símbolo mais reconhecido da história humana. O madeiro que deveria enterrar a mensagem de Jesus foi exatamente o que a projetou para a eternidade. Essa é a lógica invertida do Reino de Deus, e ela continua desconcertando quem espera que Deus opere dentro das categorias do poder humano.

A Sexta-Feira Santa não foi feita para ser apenas observada. Ela foi feita para ser confrontada. Você pode conhecer todas as curiosidades históricas e litúrgicas desta data e ainda assim perder completamente o que ela quer dizer para a sua vida. No centro de tudo não está uma tradição, não está um feriado, não está uma encenação. Está uma pergunta que ressoa desde aquela sexta-feira, e que ninguém consegue responder no lugar do outro: para quem Ele estava morrendo? A resposta que o evangelho dá é pessoal e inescapável: “Ele foi traspassado pelas nossas transgressões” (Isaías 53:5). Não pelas transgressões em geral. Pelas suas.

Dois mil anos depois, uma frase de Friedrich Nietzsche continua me assombrando. O filósofo ateu, sem querer, disse algo que qualquer apologista usaria com satisfação: “Na realidade, houve apenas um cristão, e ele morreu na cruz.” Nietzsche quis humilhar o cristianismo com isso. Acabou descrevendo o evangelho.

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