Exegese

O que nenhum pastor ou padre te conta — Parte 4

O que nenhum pastor ou padre te conta — Parte 4

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Nenhum pastor ou padre te conta. Tem coisas que a Igreja brasileira repete há décadas como se fossem verdades bíblicas absolutas e que, quando você coloca o texto na mesa, simplesmente não se sustentam. Não é questão de opinião. É questão de exegese. E hoje eu vou tratar de cinco delas, com o texto bíblico na mão e sem rodeios.

Se alguma dessas verdades incomodar, o problema não é o texto. O problema é o que te ensinaram antes de você chegar aqui.

Esse é o tema que mais gera reação dentro das igrejas evangélicas brasileiras, e a reação intensa já diz muito sobre o quanto dinheiro está em jogo nessa discussão.

A prática do dízimo, dez por cento da renda entregue sistematicamente à instituição religiosa, não tem base no Novo Testamento. Isso não é opinião de teólogo rebelde. É o que o texto diz quando lido com honestidade.

O dízimo no Antigo Testamento estava inserido em um sistema teocrático específico, vinculado à sustentação do sacerdócio levítico, às festas religiosas nacionais e ao cuidado dos pobres dentro da estrutura de Israel como nação. Era parte de um código civil, religioso e social que o próprio Cristo encerrou ao cumprir a Lei em sua plenitude.

No Novo Testamento, o que Paulo ensina sobre contribuição financeira é completamente diferente. “Cada um contribua segundo propôs no seu coração, não com tristeza ou por necessidade, porque Deus ama ao que dá com alegria.” (2 Coríntios 9:7) Paulo não fala em percentual. Não fala em dez por cento. Fala em decisão pessoal, liberdade e alegria. Transformar isso em obrigação contratual, com ameaça de maldição para quem não paga, é distorcer o texto para proteger orçamento institucional.

A generosidade cristã é real, é bíblica e é esperada de todo crente. Mas ela nasce da graça, não do contrato. E existe uma distância enorme entre essas duas coisas.

Esse tema virou campo minado no evangelicalismo contemporâneo porque tocar nele custa seguidores e gera cancelamento imediato nas redes sociais. Por isso mesmo precisa ser tratado com clareza.

A ordenação feminina ao pastorado e ao eldertado não encontra base nas Escrituras. Paulo é direto em 1 Timóteo 3:1-7 e em Tito 1:5-9 ao estabelecer os requisitos para o ofício de bispo e ancião, usando consistentemente o masculino e incluindo ser marido de uma só mulher como critério. Não é detalhe cultural descartável. É parte integrante da qualificação para o ofício.

“Não permito que a mulher ensine, nem use de autoridade sobre o marido, mas que esteja em silêncio.” (1 Timóteo 2:12) Paulo fundamenta essa instrução não na cultura greco-romana do primeiro século, mas na ordem da criação e no que aconteceu no Éden. Quando o argumento é teológico e não cultural, a tentativa de relativizá-lo como produto do tempo de Paulo não se sustenta exegeticamente.

Isso não diminui a mulher. Não a torna inferior. Não a exclua do ministério. A Bíblia é rica em exemplos de mulheres que desempenharam papéis fundamentais na história da redenção. Mas reconhecer a diferença entre ministério e ofício de liderança eclesiástica é exegese, não machismo. E confundir as duas coisas é fazer política com o texto bíblico.

O movimento pentecostal construiu boa parte da sua identidade sobre uma interpretação do dom de línguas que o próprio texto bíblico não sustenta.

Em Atos 2, o evento de Pentecostes é descrito com precisão. “E começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem.” (Atos 2:4) O versículo seguinte identifica o que eram essas línguas. Judeus de todas as nações ouviam os discípulos falando nas suas próprias línguas nativas. Partos, medos, elamitas, habitantes da Mesopotâmia. Idiomas reais, reconhecíveis, compreensíveis. Não era glossolalia, não eram sons ininteligíveis, não era linguagem extática. Era comunicação sobrenatural em idiomas humanos identificáveis.

Em 1 Coríntios 14, Paulo regula o uso desse dom e o faz dentro de um contexto que pressupõe que as línguas têm conteúdo comunicável. “Porque o que fala em língua estranha não fala aos homens, mas a Deus, pois ninguém o entende.” (1 Coríntios 14:2) A solução de Paulo para o problema não é proibir o dom, mas exigir interpretação, o que pressupõe que havia algo a ser interpretado.

O que se pratica em grande parte do ambiente pentecostal e carismático brasileiro não corresponde ao que o Novo Testamento descreve. Silêncios e sons inarticulados apresentados como linguagem celestial não encontram paralelo em nenhuma passagem do texto bíblico. O dom era idiomático, verificável e comunicativo. Não era performance emocional.

Existe uma corrente que ganhou força nas redes sociais nos últimos anos, pregando que o poder do nome de Jesus depende da pronúncia correta do nome hebraico original. Chamar de Jesus em vez de Yeshua seria uma corrupção que invalidaria a oração ou enfraqueceria a fé. Isso é misticismo sem nenhuma base bíblica.

A questão linguística tem resposta simples. A letra J não existia no hebraico, no grego nem no latim clássico. Isso é fato histórico. Mas a fonética que hoje representamos com J existia e foi transliterada de formas diferentes em cada idioma ao longo dos séculos. O nome hebraico Yeshua passou para o grego como Iesous, para o latim como Iesus e chegou ao português como Jesus. Nenhuma dessas transliterações é corrupção. São adaptações fonéticas normais que acontecem com todos os nomes próprios em todas as línguas do mundo.

Mais importante do que a linguística é a teologia. A Bíblia não ensina em nenhum lugar que o poder está na pronúncia do nome. O poder está na pessoa. “Não há salvação em nenhum outro, pois não há sob o céu nenhum outro nome dado entre os homens pelo qual devamos ser salvos.” (Atos 4:12) O nome representa a pessoa e a autoridade de quem o carrega. Não é fórmula mágica que funciona apenas em hebraico.

Quem prega que pronunciar errado o nome de Jesus causa dano espiritual está ensinando magia, não teologia. E magia bíblica não existe.

Essa talvez seja a doutrina que mais divide o evangelicalismo brasileiro entre cessacionistas e pentecostais, e o texto bíblico é mais claro sobre ela do que qualquer um dos dois lados normalmente admite.

O ensino pentecostal clássico separa a salvação do batismo com o Espírito Santo, tratando este como uma segunda experiência posterior à conversão, frequentemente evidenciada pelo falar em línguas. Esse ensino não encontra sustentação no texto paulino.

“Pois, em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um só corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres, e a todos nós foi dado beber de um só Espírito.” (1 Coríntios 12:13) Paulo não está descrevendo uma experiência para cristãos avançados. Está descrevendo o que acontece com todo crente no momento da conversão. O batismo com o Espírito Santo é a própria obra regeneradora que constitui alguém como membro do corpo de Cristo.

Romanos 8:9 fecha a questão com precisão cirúrgica. “Se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele.” Não existe cristão sem o Espírito. Não existe salvação sem o Espírito. Não existe primeiro degrau sem o Espírito e segundo degrau com o Espírito. Quem pertence a Cristo tem o Espírito. Quem tem o Espírito foi batizado nele. Os dois são a mesma coisa, descrita de ângulos diferentes.

Criar uma segunda experiência obrigatória como evidência de espiritualidade superior não é aprofundamento teológico. É criação de uma hierarquia espiritual que o Novo Testamento desconhece.

Cinco temas. Cinco pontos em que o texto bíblico diz uma coisa e o evangelicalismo popular brasileiro frequentemente diz outra. Não por má-fé em todos os casos, mas por tradição repetida sem exame, por herança doutrinária recebida sem questionamento, por medo de perguntar se o que sempre foi ensinado tem de fato base no texto.

A fé cristã não teme o exame. Ela convida ao exame. “Examinai tudo.” Retende o bem.” (1 Tessalonicenses 5:21)

O critério não é o que a tradição diz. O critério não é o que o pastor diz. O critério é o que o texto diz. E quando o texto falar, a tradição precisa se curvar.

Carlos Belchior Junior

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