
Não é novidade para ninguém que, infelizmente, muitos de nós vivenciamos a transição para uma era onde a suscetibilidade emocional parece ter se tornado a norma. Vemos uma geração que, em certos aspectos, evita a confrontação e a frustração a todo custo, criando, por vezes, um ambiente onde a delicadeza excessiva pode obscurecer a resiliência e a capacidade de lidar com as adversidades inerentes à vida. Essa observação não implica uma generalização absoluta, mas sim um reconhecimento de uma tendência crescente que merece reflexão.
Logicamente, essa sensibilidade exacerbada não abrange a totalidade da juventude, mas a proporção de indivíduos que demonstram reações desproporcionais a contrariedades triviais ultrapassou, em muitos casos, um limite que seria considerado saudável para o desenvolvimento de uma sociedade robusta e capaz de enfrentar desafios. A dificuldade em expressar opiniões divergentes ou em receber críticas construtivas sem que isso deflagre um sentimento de ofensa ou ultraje tem se tornado um obstáculo para o diálogo aberto e para o crescimento pessoal e coletivo. Assim, acompanhamos com preocupação o que parece ser um enfraquecimento da capacidade de engajar em debates produtivos e de aprender com diferentes perspectivas.
Não se pode mais dirigir a essa geração, alcunhada de “ENZOS”, comentários ou sugestões sem que estes sejam interpretados como ataques pessoais ou afrontas intoleráveis. Tudo se torna um pretexto para o ressentimento, a indignação e a vitimização, levando a uma constante necessidade de autocensura e de evitação de temas potencialmente polêmicos. Essa dinâmica de constante alerta e de medo de “pisar em ovos” dificulta a construção de relações autênticas e transparentes, baseadas na honestidade e na confiança mútua, e contribui para uma crescente fragilidade emocional.
Nos dias de hoje, a preocupação em não ferir a suscetibilidade dessa parcela da população muitas vezes nos leva a abdicar de nossas convicções, valores morais e princípios éticos fundamentais, apenas para evitar o rótulo de “ofensor”. Essa inversão de prioridades, onde a preservação da autoimagem fragilizada de alguns se sobrepõe à defesa de ideias e valores importantes, representa um perigoso precedente. A liberdade de expressão e o debate de ideias, pilares de uma sociedade democrática e saudável, ficam comprometidos quando o medo de desagradar se torna um fator paralisante.
Antigamente, a educação muitas vezes envolvia métodos mais ríspidos, como repreensões verbais firmes e, em alguns casos, palmadas (importante ressaltar a distinção entre uma correção física pontual e o abuso físico). Muitos de nós, que vivenciamos essa forma de disciplina, hoje somos adultos funcionais, com senso de responsabilidade e gratidão pelos limites que nos foram impostos. Essa lembrança não é uma apologia à violência, mas sim uma constatação de que a superproteção e a ausência de limites claros podem ter consequências igualmente negativas no desenvolvimento do caráter.
Se uma correção física como a mencionada no passado ocorresse nos dias atuais, a reação seria imediata e drástica, envolvendo autoridades policiais, conselhos tutelares e o sistema judiciário, com potenciais consequências legais severas para os pais ou responsáveis. Essa hipersensibilidade ao ato de educar com firmeza contrasta com a relativa permissividade em relação a outros aspectos da vida dos jovens, criando uma situação paradoxal onde os pais são amplamente responsabilizados, mas limitados em sua capacidade de educar de forma mais assertiva.
O emblemático educador informal de outrora, as sandálias Havaianas utilizadas para eventuais palmadas educativas, praticamente desapareceram do cenário da educação doméstica. Uma interpretação equivocada equiparou qualquer forma de correção física ao espancamento, ignorando a intenção corretiva que, em muitos casos, motivava essa prática. O resultado dessa mudança de paradigma é visível nas dificuldades que muitos jovens enfrentam para lidar com frustrações, assumir responsabilidades e respeitar a autoridade.
A própria Bíblia Sagrada, em seus provérbios, nos exorta a educar os filhos com firmeza, como se lê em Provérbios 13:24: “O que poupa a vara odeia seu filho, mas o que o ama, castiga-o na hora precisa.” Contudo, mencionar essa perspectiva atualmente pode gerar controvérsia e acusações de incentivo à violência, tamanha a sensibilidade em torno do tema da disciplina infantil.
A convivência harmoniosa e respeitosa é um objetivo fundamental para qualquer sociedade, e para alcançá-la, o respeito mútuo, o diálogo aberto e a aceitação das diferenças são imprescindíveis. No entanto, parece haver um desequilíbrio nessa equação, onde a balança pende quase que exclusivamente para o lado da preservação dos sentimentos da nova geração. Os “intocáveis” de hoje, frequentemente idealizados e protegidos em excesso, devem ser poupados de qualquer desconforto ou crítica, sob pena de se recorrer ao já batido argumento da “saúde mental fragilizada”, uma justificativa que convenientemente silencia qualquer debate ou necessidade de responsabilização.
Nós, a geração que testemunha essa transformação, muitas vezes vemos nossa própria saúde mental ser negligenciada em prol da priorização da dos mais jovens. A lógica parece ser que os mais velhos devem arcar com o ônus da adaptação a essa nova realidade, buscando individualmente recursos para lidar com as frustrações e as dificuldades de relacionamento interpessoal. A preocupação com o bem-estar psíquico parece evaporar quando se trata de cobrar posturas mais maduras e responsáveis dos “ENZOS”.
A geração “ENZO” demonstra, em muitos casos, uma notável dificuldade em aceitar opiniões que confrontam suas próprias crenças, em respeitar a experiência de quem viveu mais e em aprender com os erros alheios. Há uma tendência a desvalorizar o conhecimento adquirido através da vivência e a superestimar a própria capacidade de discernimento, muitas vezes atribuindo os erros do passado à falta de “inteligência” das gerações anteriores. Essa postura dificulta a troca de saberes e a construção de um aprendizado mútuo entre as diferentes faixas etárias.
Ao longo da criação de meus três filhos, aprendi a importância de comunicar a verdade, mesmo que ela seja desconfortável, de expressar opiniões de forma clara e objetiva, sem recorrer a ataques pessoais, e de dedicar tempo para ouvir atentamente, mesmo que as ideias apresentadas pareçam fantasiosas. A palavra “NÃO” se mostrou uma ferramenta crucial na educação, e a capacidade de se posicionar com firmeza, de escolher as batalhas com sabedoria e de buscar o equilíbrio em diversas situações foram lições valiosas para contornar os desafios da parentalidade.
Finalizo esta reflexão com uma frase do renomado psiquiatra brasileiro Içami Tiba, que resume de forma concisa a complexidade da tarefa de educar: “Criar uma criança é fácil, basta satisfazer-lhe as vontades. Educar é trabalhoso.”
Júnior Belchior
