Reflexões

O Ciclo Implacável das Pandemias e a Lição Não Aprendida.

Pandemias

Descrita pelo médico grego Hipócrates em 412 a.C., a gripe surge anualmente com a aproximação do inverno. No entanto, nem sempre ela causa epidemias marcantes como a H1N1 ou a notória Gripe Espanhola, que dizimou quase um terço da população mundial. Lamentavelmente, a humanidade insiste em não agir de forma proativa e assertiva, um padrão que se repetiu com a H1N1 e, mais recentemente, com o Coronavírus.

A primeira gripe com efeitos mortíferos em larga escala da qual se tem notícia foi a Gripe Russa, em meados de 1890, ceifando cerca de 1,5 milhão de vidas. Em apenas três meses, ela se espalhava por Europa, Ásia, África e América, provocando crises de pneumonia e febre, e até Dom Pedro II sofreu com a enfermidade em terras brasileiras. Pouco tempo depois, em 1918, surgia a Gripe Espanhola. Em apenas 14 dias, mais de mil militares foram hospitalizados, e o mal se alastrou por outros acampamentos. No pico da epidemia, mais de 1.500 militares reportaram a enfermidade em um único dia. A doença espalhou-se rapidamente pelos EUA, pegou carona com soldados americanos que embarcaram para a Europa e, de lá, conquistou o mundo. A Gripe Espanhola matou cerca de 100 milhões de pessoas globalmente (mais do que ambas as grandes guerras mundiais juntas), e a inocente Espanha, que somente noticiou a gripe, arca até hoje com uma culpa que nunca lhe pertenceu. É importante detalhar que 100 milhões de pessoas em um planeta que, até então, tinha uma população de 300 milhões de habitantes, já demonstra a ferocidade da tragédia.

Cerca de 40 anos depois, em 1957, tivemos a Gripe Asiática, que matou 2 milhões de pessoas, e a Gripe de Hong Kong, que ceifou 3 milhões. Outras gripes foram igualmente relatadas anos depois, como a Gripe Suína (2009–2010) e a Gripe Aviária (1997 e 2004), que foram modestas no número de óbitos em comparação com as demais. No caso da Gripe Aviária, o ser humano conseguiu, apesar de todo o avanço na medicina e na tecnologia, repetir o descuido: a mesma que nasceu em 1997 retornou ainda mais forte em 2004, demonstrando a notória falta de cuidados com o que muitos insistem em chamar de “gripadinha”.

Chegamos então ao famoso Coronavírus, que, como todos sabem, nasceu na China, na província de Wuhan, e se espalhou pelo mundo. As previsões indicavam que o vírus — com índice de letalidade de 2%, mas de 15% em pessoas com mais de 80 anos — poderia infectar até 70% da população mundial. A primeira morte por coronavírus ocorreu em 9 de janeiro de 2020 na China, e o mundo apenas observou com um ar suspeito. Ninguém agiu para conter a disseminação do vírus para além das fronteiras. Mais uma vez, desde 1898, a humanidade esperou o “bandido entrar para depois fechar a porta”. Na Europa, o caos já se instalava: Itália e diversos outros países europeus fecharam fronteiras e viram seus hospitais lotados. A gripe avançava impiedosamente, sem solicitar autorização. O futebol parou, as competições europeias foram suspensas, a Fórmula 1 interrompeu suas atividades, e tudo foi parando vagarosamente no continente europeu.

A economia mundial começou a se esfacelar, e o desemprego, em pouco tempo, bateria à porta, pois sem produção e consumo não há sobrevivência do capital. No Brasil, para não perder o velho hábito, tudo ficou para o dia seguinte. As precauções foram iniciadas três meses após a primeira morte por coronavírus na China, e mesmo assim as medidas ainda eram acanhadas. Infelizmente, parece que o povo brasileiro realmente acredita naquele ditado popular de que “Deus é brasileiro” e, por isso, decidimos aguardar o “bandido entrar”.

A repetição desse padrão de subestimação e atraso na resposta a ameaças virais levanta questões sobre a capacidade humana de aprender com a história. Apesar dos avanços científicos e tecnológicos que permitem um conhecimento sem precedentes sobre patógenos, a lentidão em implementar medidas preventivas robustas e a relutância em aceitar a gravidade de certas doenças persistem. Essa negligência contínua não apenas custa vidas e desorganiza economias, mas também demonstra uma falha coletiva em priorizar a saúde pública e a segurança global acima de interesses imediatistas ou de visões simplistas.

Diante de um histórico tão devastador, torna-se imperativo um novo modelo de gestão de crises de saúde. É fundamental que governos, instituições de saúde e a própria população desenvolvam uma cultura de proatividade, preparo e responsabilidade coletiva. A pandemia de Coronavírus serviu como um lembrete cruel de que a complacência é um luxo que a humanidade não pode mais se permitir. Somente com ações rápidas, baseadas em ciência e colaboração global, poderemos mitigar os impactos de futuras pandemias e quebrar esse ciclo de tragédias evitáveis.

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